domingo, 12 de junho de 2022

Igreja Pentecostal Deus é Amor muda liturgia e choca membros! Hillsong Church influencia mais uma denominação




 

A cantora Débora Miranda e seu filho Davi Miranda Neto mudaram a Pentecostal Deus é Amor 3 meses atrás. Claramente influenciados pela Hillsong, copiando seu estilo de igreja contemporânea e descolada para atrair os jovens de classe média, a IPDA vem sofrendo severas criticas de seus membros mais idosos que chegam a dizer que virou " a caverna de satanás". A maioria dos membros não gostou nada e diz que a igreja sofre "apostasia" desde a morte do missionário Davi Miranda.

Doutrinas e usos e costumes tradicionais da IPDA são popularmente conhecidos pelos protestantes como extremamente fundamentalistas e ultraconservadores. Mulheres proibidas de usar batom, pessoas proibidas de frequentar casas de evangélicos de outras denominações e outros abusos e absurdos eram tidos como "sã doutrina". Agora tudo isso mudou!

Eles estão fazendo o mesmo que várias denominações: copiando descaradamente o estilo da Igreja Hillsong. Hillsong é uma igreja neopentecostal contemporânea originada da Austrália, cujos fundadores eram membros de uma Assembleia de Deus australiana, que se diferencia muito dos neopentecostalismos escrotos e decadentes do estilo Edir Macedo e cia por adotar a música como seu principal produto, e não milagres. A teologia da prosperidade continua mas na Hillsong usa-se a música pop contemporânea e a estética do consumo de massa para atrair jovens. Suas pregações tem um ar atmosférico e buscam causar sensações físicas e emoções por meio de um estilo de música muito moderno e popular entre os jovens dos países anglófonos como Australia, Nova Zelândia, Canadá e EUA. Esse estilo de música religiosa é mais conhecido como o "Movimento Worship".

Em um trecho da série, a jornalista Kelsey MacKinney afirma que a música de Hillsong é feita para manipular. “A música da Hillsong de hoje parece com o Coldplay. O objetivo da Hillsong é se manter atualizada, fazer músicas que sabem que as pessoas vão gostar em vez de reformar os antigos hinos das avós. Eles querem que você sinta a presença de Deus dentro de si, mas é fácil confundir manipulação emocional com o movimento de Deus. Você está chorando por que o Senhor está fazendo algum tipo de intervenção na sua vida ou por que a estrutura de acordes é feita para você chorar?”

“Se você frequentasse a Hillsong toda semana e ouvisse músicas que nunca tinha ouvido, porque são novas, elas são testadas ao vivo com a plateia. Você diz que vai adorar e, sem o seu conhecimento, as pessoas no palco estão conduzindo você em um tipo de adoração emocional. Estão testando novos produtos em você”, acrescenta Kelsey.

Em outra parte, a ex-integrante do grupo, Tanya Levin, diz que a música é um componente importante para a hipnose feita por Hillsong. “A música é completamente armada para as necessidades da igreja e também para as necessidades financeiras, pois esse é o objetivo do jogo: tirar dinheiro das pessoas”.

https://ohoje.com/noticia/variedades/n/1399338/t/nova-serie-documental-mostra-escandalos-envolvendo-a-instituicao-religiosa-hillsong%EF%BF%BC/

Eu conheço Hillsong desde 2004 quando fui apresentado às músicas do dvd For All You've Done. Nunca gostei muito dessas músicas melosas e as achava repetitivas, chatas e muito melosas, enjoativas. Essas músicas deles foram traduzidas para o português e lançadas pela igreja batista da Lagoinha e outras igrejas parecidas e fizeram muito sucesso entre os jovens. Essa igreja ficou tão famosa que se tornou a igreja das celebridades com Justin Bieber, Kendall Jenner e as Kardashians e outras pessoas famosas frequentando seus cultos emocionalistas e teologicamente medíocres.

Sua música é uma cópia de Coldplay com fortes elementos do Emo dos anos 90 (ouçam In Circles da banda Sunny Day Real Estate, uma banda Emo dos anos 90 e verão de onde veio esse tal "worship" que copiou estragando o emo 90's), um pop-rock emo comercial, com elementos eletrônicos mas com algo diferente que poderíamos chamar de Atmosférico, influenciado pela música New Age (Nova Era) usada em técnicas de meditação e terapia. Esse som artificialmente atmosférico, ultramoderno, contemporâneo e parecido com o que se ouve nas rádios da Australia e EUA é a marca maior da igreja Hillsong. Permitindo a vaidade estética, com regras muito liberais sobre roupas, tatuagens, cabelos, piercings e músicas, Hillsong se tornou a igreja "ideal" para o jovem contemporâneo urbano que quer se expressar do jeito que se sentir bem sem sofrer nenhuma censura.

Outras seitas neopentecostais que surgiram ou se modificaram copiando a Hillsong são a Bola de Neve Church, a Sara Nossa Terra, Igreja Casa (Casa Worship), igreja batista da Lagoinha e outras imitações mais capengas ainda.

 MAS A HILLSONG ESTÁ CAINDO. O documentário Hillsong: O Escândalo por trás da Mega Igreja, do canal Discovery plus, mostrou (eu já assisti tudo) muito bem como o Neopentecostalismo está sofrendo uma metamorfose para se adaptar às novas necessidades. Veja o trailer do documentário:


O objetivo de Brian Houston, o fundador da Hillsong, era alcançar os EUA pra dali alcançar o mundo todo. Ele conseguiu. Como todo neopentecostalismo, a Hillsong é uma marca registrada que produz lucro e o objetivo da igreja era produzir música em massa para atingir o maior número de pessoas e inchar as igrejas de membros, aumentando os lucros não só com dízimos mas com venda de CD's, DVD's, shows e tudo mais. Um negócio e tanto, capitalismo puro com direito a pessoas trabalhando muito e DE GRAÇA como voluntários pois é uma "obra de deus".

O fato é que os jovens estão ABANDONANDO o Cristianismo. O que é maravilhoso para nós buscadores da Verdade mas um horror para os manipuladores e escravizadores de consciências. Tá acabando, gente! Tá morrendo! O CRISTIANISMO ESTÁ MORRENDO! E os donos das igrejas não sabem o que fazer!

Quando só tem idosos na sua igreja está na hora de se preocupar. Quem vai garantir seu sustento no futuro? Quem vai financiar seus luxos e sua boa vida? É preciso novos membros! Se as pessoas não querem ouvir o "evangelho", vamos então dar o que elas querem. O que o jovem moderno e urbano quer? Vejamos: se sentir em casa, sentir que faz parte de um grupo, sentir acolhido, sentir parte de algo maior, sentir aconchego, sentir num espaço seguro, usar roupas modernas que tiver afim, etc.

Não se trata de passar um ensinamento que contribua para o conhecimento e sabedoria das pessoas. Trata-se de atrair mercado consumidor para um produto. Trata-se de ganhar dinheiro vendendo emoções artificiais causadas por músicas atmosféricas contemporâneas enganando jovenzinhos carentes e depressivos das grandes cidades que, sem nenhum conhecimento teológico, nem o básico do básico, afirmam terem "sentido a presença de deus" ouvindo as açucaradas músicas da Hillsong. É a religião em seu nível mais medíocre, reduzida a emoções e sentimentalismos. Um spa pseudo-religioso.

Isso é nojento! Eu odeio esse tipo de "religiosidade" que é uma empresa visando lucro. Isso é nojento, muito nojento! Isso é manipulação, é brincar com os sentimentos das pessoas, criar um mundo paralelo onde me sinto "seguro" e "em casa" ou "acolhido" quando você é explorado e visto como um número, um mero objeto de marketing, uma coisa para dar dinheiro a uma família que controla uma empresa. Hillsong é uma empresa, um negócio lucrativo, nunca foi, nunca será Igreja.

Certos grupos católicos carismáticos estão desembocando na mesma coisa, copiando essas forçadas músicas atmosféricas emocionais e chamando isso de "cristianismo" e "movimento carismático". Que blasfêmia chamar pop-rock alternativo da banda Coldplay misturado com Emo dos anos 90 e texturas New Age de "movimento do Espírito Santo".

Gnosticismo passa muito longe de tudo isso, mas muito, mas muito muito longe!

É o fim do cristianismo e eu me alegro muito! O cristianismo muito mal fez à humanidade e ainda precisa pagar pelo genocídio e exploração dos indios e escravização dos negros. A América Latina ainda sangra muito as desigualdades sociais e o causador de tudo se chama Cristianismo.

Ah, se as pessoas soubessem! Nas próximas postagens veremos mais sobre as seguintes coisas:

O Gnosticismo penetrou  na raiz da Igreja Católica. Karl Rahner sorrateiramente colocou a doutrina gnóstica da Experiência Pessoal com Deus na Teologia Católica, se tornando o teólogo mais influente do Concílio Vaticano II, o preferido do expertíssimo Papa Bento XVI, amigo de Rahner. Karl Rahner, o grande teólogo do século XX e artífice primordial da doutrina fundamental do Cristianismo para o século XXI, precisamos estudá-lo pois os católicos sedevacantistas e tradicionalistas o odeiam acima de tudo!

Karl Rahner desromanizou a igreja católica, o que muito agradou Bento XVI que continuou seu trabalho. Ele mostrou que podemos chegar a Cristo sem a Igreja e sem os sacramentos, e de sua teologia se conclui que a tal da "paixão de Cristo" é irrelevante para qualquer ser humano que quer ter uma experiência pessoal com Deus. A experiência pessoal prescinde mesmo do cristianismo pois Rahner disse que em todas as religiões Deus de alguma forma se manifestou. Essa manifestação, que ele chama de Revelação e Autocomunicação, é exatamente o que os gnósticos chamam também de Gnose. Além disso, seus conceitos de Cristão Anônimo" e sua doutrina da Salvação Universal são a implantação católica da doutrina gnóstica e hindu (Vedanta) da Unidade Transcendente de todas as religiões.

Que alegria descobrir esse homem que continuou o trabalho de Santo Tomás de Aquino a respeito da possibilidade humana de conhecer (gnose) a Deus por meio da própria natureza divina que Deus colocou em sua criação! É O RETORNO LENTO MAS TRIUNFAL DA GNOSE na maior e mais visada Igreja da cristandade!

Os evangélicos precisam agora alcançar o que os protestantes tradicionais (luteranos, anglicanos, metodistas e reformados europeus) já alcançaram: o estudo científico da Historiografia Bíblica para aceitar de uma vez por todas que:

- Abraão, Moisés, Jacó e Isaac nunca existiram mas são lendas de cultos politeístas nômades típicos da religião semita politeísta antiga baseada em vários deuses El, Elim e Terafins;

- Saul, Salomão e Davi eram maus reis politeístas; 

- A história de Jacó e o santuário de Betel (Genesis 28: 11-17) é um notório e claro resquício de um culto politeísta cananeu com uso de pedras sagradas e crença em energias místicas que santificam o lugar, tornando-o sagrado, um claro resquício xamânico-politéista, tudo editado pelos editores monoteístas do período pós-exílico (as fontes Sacerdotal e Deuteronomista) para esconder as raízes pagãs de seu povo;

-  que Yahweh/Javé/Yahu/Yaho/Jeová é originalmente uma divindade henoteísta quenita e edomita (noroeste da arábia) e foi posteriormente levada para a Canaã se fundindo com os vários El e deuses cananeus, roubando o lugar de Baal;

- que os Hebreus na verdade eram Habiru/Hapiru, cananeus marginalizados, escravos, fugitivos, mercenários e bandidos (espécie de favelados, cangaceiros e foras da lei) que ocuparam lentamente as áreas desérticas do oriente próximo, se organizaram em sociedades tribais e clãs violentos a passaram a atacar as cidades-estado cananeias, dando origem ao mito da "conquista de Canaã" e fundando reinos pequenos que se agruparam posteriormente em dois grandes reinos pagãos inimigos: Israel e Judá;

- que a história de José no Egito, especialmente a parte de Potifar e sua mulher, é um plágio de um conto sapiencial egípcio que foi reencontrado nas pirâmides;

- Que a história de Moisês e do Êxodo é uma ressignificação em grande parte no mito egípcio de Rá;

- que o Pentateuco foi escrito durante o exílio da ELITE israelita politeísta na Babilônia, elite esta que tomou conhecimento do Monoteísmo Zoroastriano e criou seu próprio mito de criação baseado nos mitos assírios, babilônicos, acádios, sumérios e egípcios, mas, especialmente, no mito da criação babilônico de Marduk;

- que a "virgem" Maria nunca foi virgem (essa vai para os católicos) e São José nunca existiu;

- que a Paixão de Cristo é um conto helenista (greco-oriental) de um herói semideus (blasfêmia para a mente judaica mas comum nas religiões de mistério) que vence desafios e alcança a divindade, basicamente uma mistura de Hércules com Buda;

- Que nunca existiram 12 figuras históricas chamadas "apóstolos" muito menos 12 tribos judaicas, tudo influência da mentalidade babilônica, seu calendário lunissolar e seus signos do Zodíaco. 

Além disso tudo, as porcas e péssimas traduções para outras línguas do Antigo Testamento hebraico escondem os nomes das divindades e o politeísmo cananeu notório e óbvio como a religião original dos autores da bíblia. Especialmente Asherah (pronuncia-se axerá), a popular deusa da fertilidade do oriente antigo adorada como Árvore Sagrada em Israel, escondida e transformada em aspectos de Yahweh (Adonai ou Yahu, o erroneamente chamado Jeová), que finalmente foi transformada na Menorá, o famoso candelabro judaico, numa óbvia imitação do Zoroastrismo.

Veremos tudo isso com detalhes no futuro.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Refutando falsidades contra o Gnosticismo com o método de Santo Tomás de Aquino


TOMÁS DE AQUINO, O GRANDE DOUTOR E MAIOR TEÓLOGO DA IGREJA CATÓLICA OCIDENTAL. 
O GORDO DOMINICANO FEZ UMA TEOLOGIA TÃO RACIONAL E SISTEMÁTICA QUE CAUSOU UMA OJERIZA GERAL AO CRISTIANISMO CATÓLICO, DESEMBOCANDO NAS REVOLUÇÕES FILOSÓFICAS E RELIGIOSAS QUE A SOCIEDADE OCIDENTAL VEM PASSANDO ATÉ HOJE. REFLEXOS DE SUA FORMA DE PENSAR PODEM SER SENTIDOS ATÉ HOJE NO RACIONALISMO E CIENTIFICISMO EXACERBADOS QUE VIGORAM NO OCIDENTE, O QUE FEZ O PRÓPRIO OCIDENTE SE VOLTAR CONTRA O CRISTIANISMO. BASTA VER O MOVIMENTO ILUMINISTA E A REVOLUÇÃO FRANCESA. 
EM SUMA, CONHECE-SE MUITO OS LIVROS E OS ARGUMENTOS MAS POUCO JESUS. 
A PRÓPRIA RELIGIÃO CRISTÃ SE TORNOU OBSOLETA, ATRASADA E ATÉ MESMO INÚTIL DIANTE DA MODERNIDADE. 

IGNORADO PELOS PROTESTANTES E ORTODOXOS E COMPLETAMENTE DESPREZADO PELAS RELIGIÕES ORIENTAIS QUE NÃO SUPORTAM SEU MÉTODO, TOMÁS DE AQUINO TRAZ PARA O DEBATE AS IDEIAS CONTRÁRIAS E ARGUMENTOS DIVERGENTES. ISSO SIGNIFICA QUE, AO CONTRÁRIO DO QUE OS CATÓLICOS TRADICIONALISTAS PENSAM, O ESTUDO DE TOMÁS DE AQUINO NÃO CAUSA A DEFESA DA FÉ CATÓLICA E SUA VITÓRIA SOBRE AS OUTRAS RELIGIÕES MAS COLOCOU A DOUTRINA CATÓLICA EM DEBATE DE TAL FORMA QUE SE TORNOU SUSCEPTÍVEL DE ATAQUES E REFUTAÇÕES QUE A IGREJA CATÓLICA NUNCA CONSEGUIU COMBATER. O HOMEM CAUSOU A QUEDA DO CATOLICISMO TRADICIONAL, NÃO O CONTRÁRIO!


Estou estudando capítulos da Summa Teológica de Santo Tomás de Aquino. É bastante difícil. Sua escrita é árida, árdua, seca, extremamente analítica, sistemática, completamente o oposto do meu gosto. Mas tanta dureza, aridez e dificuldade me fizeram ver que Santo Tomás é muito interessante. Ele nos ensina a analisar pormenorizadamente as afirmações e buscar resolver problemas e dúvidas. Para isso ele faz amplo uso de um método dialético baseado em teses, contrateses e respostas. Ele tirou isso da Lógica Aristotélica e seus argumentos muitas vezes são silogismos de implicação.

Já fui bastante crítico de Santo Tomás de Aquino. Achava a sua Summa Teológica um horror de dificuldade. Mas venho revendo minha opinião. O homem é bastante útil e nos ensina a argumentar e fundamentar com solidez nossas afirmações.

Portanto, decidi usar Santo Tomás de Aquino contra aqueles que o referenciam sem citar e sem ter lido seus tratados sistemáticos. Falo dos militantes católicos que nunca leram um Padre da Igreja na vida e apenas copiam e colam de sites tradicionalistas as conclusões mais absurdas que são postadas nesses sites.

Vamos então refutar as falácias e argumentos viciados e ilógicos contra o gnosticismo, utilizando o método dialético de Santo Tomás de Aquino.

Teses:

- parece que o gnosticismo é dualista

- parece que o gnosticismo é influência da filosofia grega

- parece que o gnosticismo ensina que o mundo é uma criação de um deus mau

- Parece que o gnosticismo é o uso exagerado da razão, o racionalismo.

- parece que o gnosticismo é uma revolta contra a realidade

- parece que o gnosticismo é o sentimento de angústia e desespero não ultrapassados

- parece que o gnosticismo é a antiga forma do marxismo e do pensamento revolucionário de Esquerda

- Parece que o gnosticismo não é cristianismo pois é uma doutrina esotérica, secreta e destinada a uma elite.

- Parece que o Gnosticismo deriva do Zoroastrismo, a religião oficial dos impérios da Pérsia antiga antes da invasão muçulmana.

- Parece que o Gnosticismo ensina a salvação pelo esforço humano somente

- Parece que o Gnosticismo é uma doutrina fatalista, pois prega a influência do Destino/Heimarmene.

- Parece que o Gnosticismo acredita na reencarnação.

- Parece que o Gnosticismo é uma heresia do Budismo.

- Parece que o Gnosticismo é uma transposição europeia do pensamento hindu.

- Parece que o Gnosticismo é uma mera variação da cabalá judaica.



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QUESTIONAMENTO: O CRISTIANISMO NÃO É GNOSTICISMO

TESE - PARECE QUE O GNOSTICISMO É DUALISTA

1. O dualismo é a contraposição de uma substância espiritual e uma substância material, opostas de tal forma que são inconciliáveis e o dever do ser humano é viver de acordo com o Espírito e rejeitar tudo que diz respeito à matéria. 

Ora, os gnósticos dizem que o ser humano é feito de uma alma espiritual e um corpo material e que se deve libertar o elemento espiritual do corpo material que é prisão da alma, opostos e inconciliáveis.

Logo, os gnósticos são dualistas pois ensinam o mesmo que dualismo.


CONTRATESE - PARECE QUE O GNOSTICISMO NÃO É DUALISTA

2. Panteísmo é a crença de que tudo que existe é Deus. Tal doutrina é oposta ao dualismo.

Ora, os gnósticos dizem que o mundo é uma emanação necessária e da mesma substância que Deus.

Logo, os gnósticos são panteístas pois ensinam que tudo é Deus.


RESPOSTA

3. Segundo o Evangelho de Tomé (Gnosticismo Oriental de São Tomé), o Reino de Deus está dentro e fora de nós e não há divisão ou separatividade entre esses dois âmbitos da realidade, senão por ignorância e ilusão. Segundo o Evangelho de Filipe (Gnosticismo Valentiniano), Luz e Trevas, Vida e Morte são mutuamente dependentes. Segundo o Evangelho de Mani (Maniqueísmo), o mundo é uma mistura de luz e trevas. Ainda, de acordo com o Evangelho Apócrifo de João (Gnosticismo Setiano ou Clássico) bem como Pistis Sophia (Gnosticismo Eclético Pré-Maniqueísta), do Um emanou tudo que existe e para o Um tudo voltará pois a realidade é Una.

A informação de que os gnósticos contrapõem alma e corpo de maneira exagerada e inconciliável advém dos padres da igreja, fonte secundária, e não das Escrituras Gnósticas, fontes primárias.

Ora, todas as afirmações acima refutam o dualismo e o panteísmo ao mesmo tempo.

O dualismo porque sendo Una, a realidade não pode ser arbitrariamente separada entre espiritual e material, o que é oposto ao dualismo.

O panteísmo porque os evangelhos gnósticos afirmam que tudo está contido em Deus, não que o mundo é exatamente idêntico em Deus. Tal concepção é oposta e contrária ao panteísmo.

Logo, o ensino Gnóstico original, legítimo e historicamente comprovado com as Escrituras não pode ser dualista nem panteísta mas deve ser classificado de outra maneira. Alguns convencionaram chamar isso de Pan-Enteísmo, Monismo, Monismo Qualificado, ou ainda, Pseudo-Dualismo. De qualquer forma, não é dualista nem panteísta.


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TESE - PARECE QUE O GNOSTICISMO É O PRODUTO DA INFLUÊNCIA EXAGERADA DA FILOSOFIA GREGA NO CRISTIANISMO

4. Os gnósticos ensinam que o mundo não foi criador por Deus mas pelo Demiurgo, uma entidade inferior.

Ora, o Demiurgo e seu ato de artífice do mundo material é uma teoria do filósofo Platão e não está presente na Bíblia.

Logo, as doutrinas do gnosticismo são heresias causadas pela influência da filosofia grega.


CONTRATESE - PARECE QUE O GNOSTICISMO  NÃO É O PRODUTO DA INFLUÊNCIA EXAGERADA DA FILOSOFIA GREGA NO CRISTIANISMO

5. Os professores gnósticos, segundo Irineu de Lion, criaram sistemas aberrantes de mitologia que supostamente são inspirados nos filósofos gregos pagãos mas que não se parecem com nada de racional.

Ora, os filósofos não criam sistemas aberrantes de mitologia mas tentam, com o uso da razão, chegar à verdade pelo esforço do intelecto e das ciências.

Logo, o gnosticismo não é produto da influência exagerada da filosofia grega mas sim produto de delírios mitológicos de pessoas que usam o nome dos filósofos para suas escolas nada filosóficas.

RESPOSTA 1

6. O gnosticismo tem certamente influência da filosofia mas isso se dá somente na tentativa de sistematização da experiência gnóstica, que é feita com termos e linguagem da filosofia grega, especialmente platônica. A raiz mesma do gnosticismo está na experiência direta da Realidade Primeira e Última chamada Gnosis, que não é ciência de cunho intelectual mas uma sabedoria superior que se atinge pela intuição e se experimenta diretamente de forma mística e não através de estudos e uso da razão.

Ora, nem a filosofia grega nem a religião popular politeísta grega tem algo a ver com essa experiência interior. Poderia se comparar com os cultos de mistério que tinham algo de intelectual mas algo de irracional também.

Tanto os cultos de mistério quanto os judeus do período helenístico faziam uso da interpretação alegórica, lendo e estudando misticamente os textos e relatos de sua própria tradição. Porém nada disso faz parte originalmente da filosofia grega mas penetrou nela tardiamente por influência de religiões místicas e orientais.

Logo, o gnosticismo tem como base uma experiência interior de realização existencial mística que não se fundamenta em nenhuma mitologia antiga mas apenas faz uso simbólico de vários mitos, tampouco é produto do estudo intelectual esforçado.

RESPOSTA 2

7. O gnosticismo certamente é semelhante ao Orfismo, a maior das religiões de Mistério da Grécia antiga. Orfismo ensina que dentro dos homens habita algo de divino que se diferencia do mero corpo. Contrapõe, num nível exotérico e inicial da doutrina, um certo "dualismo", visto que alma é divina e pertence à "extirpe dos deuses" como dizem claramente os Hinos Órficos sobreviventes. O corpo é lugar de culpa e expiação da alma preexistente e no fim do ciclo de renascimentos a alma ganha sua recompensa indo para o mundo eterno dos Deuses.

Ora, o Orfismo quebra e revoluciona o pensamento grego totalmente, não podendo sequer ser chamado de uma religião grega mas sim um movimento de contracultura que não se encaixa no quadros da cultura grega tradicional, quase uma aberração oposta ao pensamento grego. A cultura grega vê o homem como mortal, não concebe a alma como divina e nem conceitua a alma como os órficos. Certamente nem a religião grega Homérica nem os tratados cosmogônico-teogônicos de Hesíodo pregam nenhum tipo de reencarnação, nem transmigração de alma, nem de eterno retorno de almas a esse mundo, muito menos creem no dualismo céu-inferno e nas recompensas após a morte. Não sendo originalmente gregas, essas doutrinas foram inseridas posteriormente no mundo grego, provavelmente pelo Egito.

Logo, impossível o Gnosticismo derivar pura e simplesmente da religião e filosofia gregas visto que estas são contrárias aos fundamentos básicos do Gnosticismo que se fundamentam em crenças egípcias de alma e vida após a morte e não na tradição Homérica e de Hesíodo, estas sim deram origem ao pensamento filosófico grego e influenciaram as ideias de Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Heráclito, os primeiros filósofos.

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TESE - PARECE QUE O GNOSTCISMO ENSINA QUE O MUNDO É CRIAÇÃO DE UM DEUS MAU

8. O mito gnóstico diz que o Demiurgo é o Deus Criador do mundo material e que ele é um deus inferior e mau.

Ora, o mundo segundo os gnósticos é o reino da matéria que é má.

Logo, a criação é produto de um Deus mau segundo o Gnosticismo.


CONTRATESE- PARECE QUE O GNOSTICISMO NÃO ENSINA QUE O MUNDO É UMA CRIAÇÃO DE UM DEUS MAU

9. Os gnósticos ensinam que o verdadeiro Deus Bom, o Uno ou Inefável é imanente ao mundo, está presente em toda a natureza e dentro das pessoas, uma forma de panteísmo parecida com o Neoplatonismo.

Ora, se o Deus Bom está presente em tudo e se identifica com tudo, não há espaço para o Demiurgo nem para a criação má do mundo, pois seria absolutamente contraditório que o mundo fosse ao mesmo tempo o próprio Deus Bom e criação do deus mau.

Logo, o gnosticismo não ensina que o mundo é mau e fruto do deus mau.


RESPOSTA 1

10. As Escrituras Gnósticas ensinam que o mundo é uma mistura de Luz e de Trevas, ou seja, do Bem e do Mal. O Apócrifo de João traz uma mitologia onde o Criador usa uma parte da luz da sabedoria (Sophia, sua mãe) e a mistura com os arcontes do mal para criar o mundo. No mito do Evangelho de Mani, Jesus e a Donzela da Luz criam o mundo a partir dos corpos dos arcontes, modelando a matéria deles e os fixando com leis naturais, colocando cada coisa do universo em seu lugar, fazendo do cosmo uma grande imagem do Céu e um mecanismo ou sistema que permite as almas presas no mundo transmigrar para formas de vida mais puras até poderem sair da matéria.

Ora, aquilo que é mau e bom não é totalmente bom. Tampouco totalmente mau. Dizer que o Maniqueísmo é a contraposição do Bem e do Mal e que os seres se subdividem em criaturas boas e criaturas más inconciliáveis é o exato oposto da doutrina maniqueísta que, pelo contrário, ensina que no mundo Bem e Mal estão misturados e o trabalho mais difícil é saber separar o bem do mal e fazer as escolhas certas.

Logo, não se pode falar que  mundo é o produto ruim de uma criação má.

RESPOSTA 2

11. As Escrituras Gnósticas apresentam um mito e logo depois a interpretação desse mito. O mito nunca é literal e diz respeito a processos internos. Isto é claro no Apócrifo de João e na Pistis Sophia.

Ora, no mito gnóstico clássico, o criador Yaldabaoth é filho de Sophia, a Sabedoria. Também no mito valentiniano, o Demiurgo é filho de Achamoth, a Sabedoria Inferior. A entidade Sophia representa a alma humana e é um aeon, uma divindade, de acordo com os próprios textos gnósticos. Portanto, o criador do mundo é um produto da alma humana. Conclui-se disso que os gnósticos tinham um ensinamento muito mais profundo sobre o criador do mundo, sendo ele não um deus como se pensa comumente mas um poder da própria humanidade, uma realidade que está em todo ser humano, uma corrupção da sabedoria humana.

Ora, por mais que seja bom, há o mal no mundo. E por mais que seja mal, há o bem. O mundo material não é mau e o mundo espiritual não é bom - essa divisão arbitrária não consta nas Escrituras Gnósticas.

Logo, é falso que os gnósticos ensinam que o mundo é produto de uma criação má de um deus mau.

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CONTINUA!

domingo, 30 de janeiro de 2022

Gnosticismo é dualista? Não! (PARTE 3 - FINAL) O Dualismo Egípcio e Semita


A RIVALIDADE ENTRE HORUS E SETH, UMA DAS FORMAS EM QUE O DUALISMO EGÍPCIO SE APRESENTA

 

Para entender corretamente o mito maniqueísta da Guerra do Rei da Luz contra o Rei das Trevas acredito que é necessário estudar a filosofia mística esotérica de Platão, sendo que este se baseou na filosofia esotérica religiosa e mística do Egito Antigo, como já vimos na postagem sobre os mitos cosmogônicos egípcios e o Demiurgo:

https://gnosedesi.blogspot.com/2020/10/mitos-cosmogonicos-egipcios-o-demiurgo.html

Nessa postagem o foco coram os mitos sobre o Demiurgo. Agora vamos falar rapidamente a respeito do Dualismo na Religião Egípcia e porque o chamado Dualismo Platônico deriva das concepções egípcias de dualismo e não da cultura grega. 

Mas antes é preciso saber o básico do básico da religião egípcia, seus deuses e modo de pensar a realidade. Por isso vamos ler essa postagem sobre a religião na vida diária dos egípcios.

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A religião na vida dos antigos egípcios


por Emily Teeter

por Douglas J. Brewer


Porque o papel da religião na cultura euro-americana difere muito daquele no antigo Egito, é difícil apreciar plenamente seu significado na vida cotidiana egípcia. No Egito, religião e vida estavam tão entrelaçadas que seria impossível ser agnóstico. Astronomia, medicina, geografia, agricultura, arte e direito civil – praticamente todos os aspectos da cultura e civilização egípcias – eram manifestações de crenças religiosas.

Escultura HathorA maioria dos aspectos da religião egípcia pode ser atribuída à observação do meio ambiente pelo povo. Fundamental foi o amor à luz do sol, o ciclo solar e o conforto trazido pelos ritmos regulares da natureza, e o ciclo agrícola em torno da subida e descida do Nilo. A teologia egípcia tentou, acima de tudo, explicar esses fenômenos cósmicos, incompreensíveis para os humanos, por meio de uma série de metáforas compreensíveis baseadas em ciclos naturais e experiências compreensíveis. Assim, o movimento do sol no céu era representado por imagens do sol em seu barco celestial cruzando a abóbada do céu ou do sol voando sobre o céu na forma de um escaravelho. Similarmente, o conceito de morte foi transformado da cessação da vida em uma imagem espelhada da vida, na qual o falecido tinha as mesmas necessidades e desejos materiais.

Origens e natureza dos deuses

É quase impossível enumerar os deuses dos egípcios, pois divindades individuais poderiam se fundir temporariamente umas com as outras para formar deuses sincréticos (Amun-Re, Re-Harakhty, Ptah-Sokar, etc.) que combinavam elementos dos deuses individuais. Um único deus também pode se fragmentar em uma multiplicidade de formas (Amun-em-Opet, Amun-Ka-Mutef, Amon de Ipet-swt), cada uma das quais tinha um culto e um papel independentes. Ao contrário dos deuses do mundo greco-romano, a maioria dos deuses egípcios não tinha atributos definidos. Por exemplo, Amon, uma das divindades mais proeminentes do Novo Reino e do Período Tardio, é vagamente referido na literatura secundária como o "Deus do Estado" porque seus poderes eram tão amplos e abrangentes que eram indefiníveis.

Em grande parte, os deuses foram modelados após os humanos - eles nasceram, alguns morreram (e renasceram) e lutaram entre si. No entanto, por mais que o comportamento dos deuses se assemelhasse ao comportamento humano, eles eram imortais e sempre superiores aos humanos.

Os deuses são atestados desde os primeiros tempos da civilização egípcia. Modelos antropológicos padrão que sugerem que os deuses nas primeiras civilizações são derivados de uma deusa-mãe ou que são a encarnação de aspectos da natureza não se encaixam nas evidências egípcias. Para complicar ainda mais nossa compreensão dos deuses primitivos, está o fato de que uma única divindade pode ser representada na forma humana, na forma zoomórfica ou em uma forma mista animal-humana. Embora as formas animais e teriantrópicas (isto é, parte humana, parte animal) sejam ligeiramente anteriores às manifestações antropoides, é improvável que os deuses fossem derivados de animais totêmicos ou que os egípcios praticassem zoolatria (isto é, adoração de animais). Em vez disso, as formas animais provavelmente foram usadas para sugerir metaforicamente algo sobre as características do deus.

Certos deuses estavam fortemente associados a localidades específicas, embora sua adoração não se limitasse a essas regiões. Os deuses foram organizados em agrupamentos que expressavam elementos masculinos e femininos (Amon/Amunet), tríades familiares (Amon, sua esposa Mut e seu filho Khonsu) e outros agrupamentos como a Ogdoad de oito deuses e a Enéade de nove deuses.

Muitos aspectos da teologia egípcia são ilusórios para os pesquisadores modernos. Isso resulta do fato de que houve um tremendo desenvolvimento de idéias religiosas ao longo dos 3.000 anos da civilização egípcia, mas poucos conceitos foram descartados; em vez disso, eles foram colocados em camadas de uma maneira cada vez mais complexa e aparentemente complicada. Embora algumas vezes descartadas como sinais de uma cultura primitiva ou da confusão dos egípcios sobre seu lugar no universo, as crenças aparentemente contraditórias são melhor interpretadas como metáforas estendidas usadas para explicar o intangível. Por exemplo, existem várias ideias diferentes e aparentemente contraditórias sobre a criação. Em algumas teologias, o deus Ptah trouxe a humanidade à existência pela força de seus pensamentos, enquanto outros contam que a humanidade foi criada por Khnum em sua roda de oleiro celestial. Em outros ainda, o deus Atum realizou o primeiro ato de criação de sua saliva ou sêmen. Todas essas soluções foram uma tentativa de explicar um fenômeno que estava além da compreensão humana em metáforas mais compreensíveis.

Culto dos deuses

Rei Ramsés IIIAs divindades exigiam comida, bebida, roupas e rituais de purificação para sustentá-los como protetores da humanidade contra as forças do caos. Essas necessidades foram atendidas no curso de rituais realizados diante de uma estátua de culto ao deus que se pensava fornecer uma morada para a alma da divindade. Embora nenhum exemplo completo de tal estátua de culto tenha sido identificado, a Estela da Restauração de Tutancâmon descreve a estátua de Amon como "sua imagem sagrada sendo de eletro, lápis-lazúli, turquesa e todas as pedras preciosas". Em teoria, o rei, como o sumo sacerdote da terra, aproximava-se do santuário onde a estátua estava três vezes por dia (na realidade, o sumo sacerdote do templo, acompanhado por coros de cantores do templo e fileiras de outros sacerdotes, substituído por o rei). Ele abriu as portas do santuário que cercava a estátua e realizou rituais de purificação. A estátua de culto foi lavada, ungida com perfumes e vestida com roupas e colares. Comida e bebida eram colocadas diante da imagem do deus para o sustento divino. Após um intervalo adequado para o deus consumir as oferendas, elas eram removidas e revertidas para a equipe do templo.

barco sagradoAs procissões do deus eram uma característica importante do culto. Durante os festivais, a estátua do deus era removida de seu santuário e colocada em um santuário portátil que, por sua vez, era colocado em um barco. Esses ofícios rituais podem ser bem grandes; de fato, os textos de Tutancâmon afirmam que ele foi carregado por onze pares de sacerdotes. As procissões de barcos sagrados podiam circundar o templo ou fazer uma peregrinação de um templo a outro, acompanhadas por funcionários do templo e moradores locais que cantavam, dançavam e aclamavam o deus.


Maat, o rei e seus súditos

Central para a religião e o pensamento egípcio é o conceito de Maat, a personificação da verdade e o equilíbrio universal do universo. Esse senso de ordem, personificado como uma deusa chamada Maat, entrelaçou todos os aspectos do comportamento e pensamento diários corretos com ordem e harmonia cósmicas. Os indivíduos eram pessoalmente responsáveis ​​pela manutenção da ordem universal. Se alguém transgredisse as forças da ordem, o caos - um estado antitético a tudo o que os egípcios conheciam e valorizavam - aconteceria e, neste reino assustador, o sol não nasceria, o Nilo não inundaria, as colheitas não cresceriam e as crianças abandonariam seus pais idosos.

Um dos deveres mais fundamentais do rei era manter Maat por meio de sua intercessão junto aos deuses e especialmente por meio das ações de culto realizadas nos templos todos os dias em seu nome. No entanto, cada um de seus súditos, por meio de seu comportamento correto, compartilhava dessa responsabilidade. O que constituiu a moralidade adequada é ilustrado pela confissão negativa que o falecido recitava em seu julgamento diante dos deuses. Esta ladainha, Feitiço 125 do "Livro dos Mortos", estipulava o que era considerado pecaminoso, como: "Não fiz mal; não matei pessoas; não fiquei mal-humorado; não fiz ninguém chorar; não tive relações sexuais com uma mulher casada." Protestos como "Eu não contestei o rei" indicam quão estreitamente a religião estava ligada ao Estado,

O rei, Osíris e os rituais de rejuvenescimento

Uma das funções mais significativas do ritual e do mito egípcio era o reforço e a proteção do cargo e do corpo do rei. O mito mais importante associava a entidade do rei aos deuses Osíris e Hórus. De acordo com o mito, Osíris, o primeiro rei do Egito, foi assassinado por seu malvado irmão Seth. Sua morte foi vingada por Hórus, filho de Osíris, e lamentada por sua irmã/esposa Ísis e sua irmã Néftis. Esse esboço básico tem uma miríade de variações, cuja versão mais elaborada aparece nos escritos de Plutarco do século II d.C., mas o foco do mito era associar o rei vivo ao deus Hórus e seu antecessor falecido ao pai mumiforme Osíris. Dessa forma, cada rei do Egito foi incorporado a uma descendência mitológica do tempo dos deuses. O mito também enfatizava a piedade filial e as obrigações de um filho para com seu pai. Acredita-se que Osíris (ou, de acordo com várias versões do mito, pelo menos parte do corpo do deus) foi enterrado em Abidos, explicando a natureza sagrada do local ao longo da história egípcia.

Os deuses Osíris (esquerda) e Hórus (direita) (após Hobson 1987).

No final do Império Antigo, a identificação póstuma com o deus Osíris foi adotada pelas pessoas comuns. Após a morte, se eles tivessem vivido suas vidas de acordo com Maat e pudessem confessar sinceramente que não haviam cometido nenhum pecado mortal diante dos juízes divinos no Salão das Duas Verdades, eles eram admitidos na companhia dos deuses. Caixões e objetos funerários do Novo Reino registram que o nome do falecido era composto pelo do deus, e que a face dos caixões pertencentes aos homens exibia a barba falsa de Osíris.

Rei Ramsés IIIMuitos rituais eram dedicados ao rejuvenescimento eterno do rei vivo. O mais importante foi o festival Sed (também conhecido como o " jubileu"), que é atestado desde o início do período dinástico e foi celebrado até a era ptolomaica. Durante a maior parte da história egípcia, o ritual foi celebrado no trigésimo aniversário da ascensão do rei ao trono e, posteriormente, em intervalos de três anos. Ao longo do festival, o rei alternadamente vestiu a coroa vermelha do Baixo Egito e a coroa branca do Alto Egito e, segurando instrumentos como um vaso fino, um esquadro de carpinteiro e um remo, percorreu um circuito entre duas plataformas em forma de B, o rei foi então simbolicamente entronizado. Como o ato central do ritual - executar o circuito - era físico, o festival Sed pode ser o vestígio de uma cerimônia pré-dinástica em que o rei provou sua virilidade contínua e capacidade física de governar. Embora haja grande ênfase na celebração do jubileu nos anais e autobiografias dos cortesãos que serviram aos reis que celebravam o Sed, pouco se sabe sobre as cerimônias específicas.

No reinado de Hatshepsut (Dinastia 18), foi introduzido outro ritual que, como o Sed, enfatizava o poder do rei. Este festival, chamado Opet , era celebrado anualmente em Tebas. O ritual tomou a forma de uma procissão das barcas sagradas da tríade tebana (Amon, Mut e Khonsu) acompanhadas pela barca do próprio rei. Uma vez dentro do santuário do Templo de Luxor, o ka (espírito) do rei foi rejuvenescido por mais um ano por sua fusão temporária com os deuses.

https://fathom.lib.uchicago.edu/1/777777190168/


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Agora, vejamos a respeito da Dualidade nas religiões egípcia e babilônica:

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DUALIDADE - UCLA - ENCICLOPÉDIA DE EGIPTOLOGIA

O termo “dualidade”, não atestado em egípcio, é usado na moderna Academia em referência a uma maneira de  pensamento que cria significado conceitualmente justapondo opostos ou realidades complementares (sejam culturais, filosóficos ou do mundo natural) em uma relação estática ou dinâmica e serve como um mecanismo para entender e explicar o funcionamento do mundo. Essas realidades são unidas em pares consistindo de dois elementos cuja combinação resulta em um novo, conceito significativo que demonstra um sentido de unidade e inclusão que falta aos elementos individuais. O pensamento dualista era um característica da mentalidade egípcia antiga, como é evidente a partir de registros textuais e pictóricos, onde encontramos que o emparelhado de elementos, ou “pólos” conceituais, podem estar em um relação de verdadeiros opostos, como ntt e jwtt , “o que é” e “o que não é”, respectivamente, cuja combinação resultou em um conceito denotando a totalidade do cosmos. Alternativamente, os pólos podem ficar em um relação de complementaridade, como Alto e Baixo Egito, e também deficiência, como dia e noite, onde a noite poderia ser entendida como a “ausência de luz solar”. 

Qualquer discussão sobre dualidade deve diferenciar entre o caráter “estático” de certas combinações - por exemplo, a organização do estado egípcio em duas regiões discretas (Alto e Baixo Egito) - e o caráter “dinâmico” de outras combinações, como a divisão de um dia completo em uma sucessão de dia e noite. Os dois pólos opostos constituem o que Lévi-Strauss chama l'écart maximum, ou “a máximo distância” (Lévi-Strauss 1962, 1996), entre as quais os estágios intermediários são classificados. Por por exemplo, na relação dinâmica noite/dia (definido pelo contraste entre ausência e presença de luz solar), os egípcios classificaram os estágios intermediários como segue: noite sem lua; noite com lua crescente ou minguante; noite de lua cheia; dia (Servajean 2004).

Abordagens estáticas e dinâmicas eram frequentemente aplicadas em combinação a uma mesma imagem ou conceito. Por exemplo, como ser humano, o rei estava sujeito ao tempo no que é essencialmente uma relação dinâmica. Então, novamente, como um ser investido com os poderes da realeza, que é uma instituição singularmente imutável, o Rei é eterno.

Essa dualidade permite uma compreensão da função do rei como mediador entre o reino imutável das divindades ( djet ) e o mundo transitório do homem ( neheh ) (Servajean 2007: 37 - 42). Como meio de explicação e classificação, o dualismo permite a imposição de relacionamentos no mundo natural. Por exemplo, o Alto Egito tem primazia sobre Baixo Egito, assim como o dia tem primazia sobre noite, e djet sobre neheh . Cada um dos pólos conceituais tem significado próprio, mas a presença do outro está sempre implícita e pode adicionar significado por associação. Por ver a noite como um período durante o qual certos eventos negativos ocorreram, como a tentativa de Seth de violentar a Hórus (Servajean 2007: 126 - 127), o dia implicitamente se manteve, por oposição e associação, como um tempo de paz e ordem ( maat ) (Servajean 2007: 105 - 107).

Dualidade em Relacionamentos Estáticos

Sempre que o dualismo é empregado para explicar a caráter imutável de um fenômeno ou conceito, os dois termos da relacionamento diádico estão em um estado de igualdade. Por exemplo, no motivo da “Unificação das Duas Terras” ( smA-tAwj ) (Baines 1985: 226 - 276; Dohrmann 2006), a dominação do rei sobre um estado unificado é expressa através da combinação dos dois territórios complementares do Egito faraônico, ou seja, Alto Egito (ou o Vale do Nilo) e Baixo Egito (ou Delta) [Figura 1]. 

O emblema mostrado na Figura 1 é dividido em duas partes por um sinal hieroglífico vertical, smA (“unir”), sobre o qual repousa o nome do rei, escrito em uma cartela. À direita está Seth, a divindade associada ao Alto Egito, enquanto Hórus, associado ao Baixo Egito, fica à esquerda. Os dois deuses são mostrados amarrando as duas plantas heráldicas do Alto e do Baixo Egito - o lótus e papiro, respectivamente. Ao fazer isso, os deuses unem simbolicamente ( smA ) os territórios de Alto e Baixo Egito, ou “as Duas Terras” ( tAwj ). Com o nome do rei no topo do sinal smA , o emblema se comunica visualmente e verbalmente que é o rei que permite e supervisiona a união. A unidade é assim alcançada transcendendo a oposição. Isto não deve ser entendido como uma negação da existência da diversidade; pelo contrário, era uma forma de expressar a totalidade de um conceito em termos de unificação de seus opostos mas interdependentes componentes. A mesma ideia foi expressa em o motivo do pschent , que combina as coroas branca e vermelha do Alto e Baixo Egito, respectivamente, em uma coroa que representa o estado faraônico unificado.

Figura 1. Hórus e Set unindo as duas terras:



Dualidade em Relacionamentos Dinâmicos

Em contextos onde a dualidade é empregada para explicar o caráter dinâmico de um fenômeno, os dois termos do relacionamento diádico são interdependentes, um termo dependendo do outro. Por exemplo, o transição do tempo foi expressa em egípcio combinando neheh , tempo como contado pelo homem, com djet , eternidade imutável. O anterior é inerentemente um constituinte de djet , mas é extraído dele e a ele devolvido em intervalos regulares (Servajean 2007: 57 - 64). Uma similar interdependência é expressa na unidade entre Ra e Osíris, que é entendido em termos teológicos como Ra (o princípio neheh ) entrando em Osíris (o princípio djet ) na sexta hora da noite e deixando-o novamente ao amanhecer.

Seja a relação estática ou dinâmica, a unidade só é possível através da “mediação” de um referente externo. Por exemplo, a “União das Duas Terras” – uma dualidade estática – exigia que a mediação do nome real fosse viável. A dualidade dinâmica, além disso, dependia especificamente da mediação de um elemento secundário apenas, ou de um produto do elemento primário (dominante). Assim, no caso de djet e neheh , foi o retorno de neheh (o elemento secundário) para djet (o primário elemento) que tornou a unidade possível. Similarmente, no mito da criação do disco de ouro (isto é, a lua), como narrado no História egípcia As Contendas de Hórus e Seth (Servajean 2004: Papiro Chester Beatty I r., 11, 1 - 13, 1), é a lua ( jtn n nbw ) — que cresce do sêmen de Hórus na testa de Seth - que preside toda uma série de relações binários, como dia/noite e ordem/desordem, encarnados nos dois antagonistas Horus e Seth. Portanto, a mediação da lua resulta em uma “unidade” composta pela sucessão infinita de dias e noites.

Um mecanismo para compreender o mundo

A identificação dualista do Egito como a combinação de duas metades complementares (Alto e Baixo) foi articulado no topografia cultual do país, que foi caracterizada por uma distribuição simétrica de cidades e centros de culto em Alto e Baixo Egito. Por exemplo, o deus Thoth foi adorado tanto em seu principal centro de culto de Hermópolis no Alto Egito como em uma cidade-espelho com o mesmo nome no Baixo Egito: havia assim uma Hermópolis do sul e uma Hermópolis do norte. Da mesma forma, Hórus era adorado em Behdet do sul e Behdet do norte; Osíris, em Abidos no Vale do Nilo e Busiris no Delta; o deus do sol Ra, em Heliópolis no Delta e Armant no vale do Nilo (antigamente conhecida como “Heliópolis do Sul”). O mesmo se manteve verdade para a organização do governo central: os escritórios foram subdivididos em pares (seja no título apenas), um dos quais pertencia à administração do Alto Egito e o outro, o Baixo Egito. O rei, por exemplo, foi "Senhor das Duas Terras" ( nb tAwj ) ou “Ele da Junça e da Abelha” ( nswt-bjtj ). Em certos períodos, o vizirado era subdividido de forma semelhante; da mesma forma, o Tesouro real era composto por duas instituições complementares, “as Duas Casas de Prata” ( prwj HD ).

O processo de criação também foi entendido dualisticamente. Acreditava-se que o cosmos foi criado por uma única divindade que implicitamente encarna as qualidades masculina e feminina. No caso do deus criador Atum de Heliópolis, essa dupla natureza fé explícita no momento em que Atum criou as duas primeiras divindades, Shu (masculino) e Tefnut (feminino), que eram manifestações de dois aspectos complementares do cosmos - "ar" e "umidade", respectivamente - e novamente no momento da criação de sua prole, Geb (masculino) e Nut (feminino) – “terra” e “céu” (Bickel 1994: 168 - 176; Meeks, D., and Christine Favard-Meeks 1995: 148 - 149; Sauneron e Yoyotte 1959: 30). Embora neste exemplo o gênero dual do demiurgo estivesse implícito, a dualidade de gênero poderia ser expressa explicitamente também assim: a deusa Neith levava o epíteto “o pai dos pais e a mãe das mães” (Sauneron 1961: 242 - 244), e em sua descrição de si mesma em Textos de feitiço do caixão II, 161a, Atum diz: “Eu sou o macho e a fêmea”.

No pensamento egípcio antigo, numerosos conceitos emparelhados serviram como instrumentos para definir e estabelecer regras para o relacionamento entre deuses e homens. O par maat/isfet (“ordem” e “desordem”) codificou esses relacionamentos em termos de moralidade. Com respeito ao ritual, essas relações eram definidas por tais pares como sagrado/profano e ritualizado/não ritualizado (Meeks, D. 1988: 444), e por uma dualidade geográfica, como norte versus sul e leste versus oeste (Moret 1902: 102-104). Da mesma forma, em relação à arquitetura do templo, o par “interior/exterior” impôs uma hierarquia estrutura em locais de culto e assim definido os papéis e deveres das pessoas envolvidas (Assmann 1994). A dupla djet / neheh organizou a relação temporal e espacial (Servajean 2007: 83), a primeira (djet) referindo-se a natureza imutável do mundo divino e o último (neheh), ao tempo como experimentado pelo homem.

Em conclusão, no antigo Egito a dualidade não era simplesmente um artifício de pensamento intelectual, ou uma doutrina esotérica, inacessíveis à maioria da população. Pelo contrário, foi um dispositivo de estruturação mental pelo qual os egípcios viviam, expressando, implícita ou explicitamente, uma visão do mundo e seu funcionamento. Além disso, não foi exclusivamente egípcio (Lévi-Strauss 1974: 154 - 188; 1996: 89 - 101).

Notas Bibliográficas

Infelizmente, não há nenhum estudo abrangente sobre o conceito de dualidade no antigo Egito. Eberhard Otto (1938) aborda o fenômeno a partir de uma perspectiva histórica e tenta estabelecer os princípios gerais. O trabalho posterior de Otto (1975: colunas 1148 - 1150) oferece uma bibliografia útil. Wolfhart Westendorf (1974) discute o significado e a função da unidade, dualidade e trindade como categorias mentais na teologia egípcia. Pequenas discussões podem ser encontradas em Frankfurt (1948: 19 - 23), Bonhême e Forgeau (1988: 15 - 16) e Desroches Noblecourt (1996).

https://escholarship.org/content/qt95b9b2db/qt95b9b2db.pdf

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Tempo e eternidade: um dualismo egípcio


Como eu estava pesquisando para os posts sobre o ankh , me deparei com algumas informações interessantes, descrevendo o conceito egípcio de “tempo” e “eternidade”. Esses conceitos quase parecem repetitivos e redundantes ao nosso modo de pensar moderno, mas para os egípcios cada um desses termos representava algo concreto e distinto, e ambos eram invocados em certos rituais, textos e ilustrações. É claro que os egípcios consideravam essas duas idéias únicas, mas muitas vezes as usavam juntas, e por isso parece difícil para nossos egiptólogos atuais distinguir ou desambiguar o que os egípcios queriam dizer com elas individualmente. Tem havido muita especulação.

Os dois símbolos usados ​​para o “tempo” e “eternidade” comumente traduzidos são neheh (nhh) e djet (dt), respectivamente, e se pareciam com isso:


Jan Assmann descreveu a dificuldade de definir uma compreensão desses hieróglifos: 

O significado desse conceito disjuntivo de tempo e seus dois componentes não pode ser traduzido por nenhum par de palavras nas línguas ocidentais. Os termos egípcios de modo algum correspondem ao nosso “tempo” e “eternidade”; essa distinção derivada da ontologia grega (eternidade como presença pontualmente concentrada do ser, que se desdobra no tempo como processo de devir) não era apenas estranha ao pensamento egípcio, mas até mesmo contrária a ele. Neheh e djet ambos têm propriedades de nosso “tempo”, bem como de nossa “eternidade” e, na prática, às vezes podem ser traduzidos como “tempo” e às vezes como “eternidade”.  Os termos referem-se à totalidade (como tal, sagrada e em certo sentido transcendente e, portanto, “eterna”) do tempo cósmico.Para esclarecer esse conceito de tempo e suas implicações religiosas ou alcance semântico, devemos prestar atenção a uma distinção importante. Estamos tão acostumados à noção de infinito que pensamos em “totalidade” como finita e limitada. Os egípcios, no entanto, viam “totalidade” como o oposto de finito e limitado. Para eles, os limites da totalidade não eram contrastados com o ilimitado, mas com o “todo”, com a “plenitude”. ((Jan Assmann, The Search for God in Ancient Egypt , Cornell University Press (2001), 74.))

Por mais estranhos que esses conceitos pareçam ao pensamento ocidental e moderno, Assmann propõe uma maior compreensão, voltando ao Livro dos Mortos :

No capítulo 17 do Livro dos Mortos, um compêndio de crenças mortuárias egípcias na forma de uma série de perguntas e respostas (o exame de um iniciado?), a expressão “todo ser” é explicada como “neheh e djet”. O que isso significa é que neheh e djet designam o horizonte abrangente e absoluto da totalidade.  Referem-se à totalidade temporal do cosmos , mas foi assim que o conceito de “cosmos” ou “ser”, isto é, de realidade, era compreensível ao pensamento egípcio e articulada. Essa totalização do estar no nível temporal é tão estranha para nós que alguns estudiosos propuseram que djet e neheh significam “espaço” e “tempo”. Isso não está correto, no entanto; ambos são conceitos inequivocamente temporais, e no pensamento egípcio, eles representavam toda a realidade . ((ibid., 74.))

Então, como devemos entender neheh e djet ?

O mais próximo que podemos chegar é um par de conceitos como “mudança” e “conclusão/perfeição”. .

Também podemos ilustrar a disjunção egípcia do tempo com a ajuda dos conceitos “venha” e “permaneça”. Costuma-se dizer do neheh-time que ele “vem”: é o tempo como um fluxo incessantemente pulsante de dias, meses, estações e anos. Djet- tempo, no entanto, “permanece”, “dura” e “dura”. É o tempo em que distinguimos o completo, o que foi efetuado na corrente do neheh- tempo, que amadureceu na completude e se transformou em uma forma diferente de tempo que não sofrerá mais nenhuma mudança ou movimento.

O conceito neheh ainda pode ser melhor conectado com nossa noção cotidiana de tempo. Para nós, o tempo é menos algo que vem do que algo que passa, mas em todo caso em movimento. djet significa. a continuação duradoura daquilo que, agindo e mudando, se completou no tempo. ((ibid., 75.))

kemetismo moderno oferece mais explicações:

O termo neheh refere-se à natureza cíclica do tempo expressa na passagem das estações e eventos celestes, o tempo que não é linear, mas que entra em espiral com a repetição de certos eventos: dia e noite, estações, feriados e o ciclos naturais da vida. A natureza cíclica de Neheh pode ser observada nos hieróglifos que compõem seu símbolo, todos eles caracterizados por curvas ou superfícies não lineares: a linha ondulada superior representando a água, os dois hieróglifos de cada lado que são o pavio das lamparinas que queima na noite, e o círculo com um ponto no meio, símbolo universal de Ra, o próprio sol. .

Este termo, djet, refere-se especificamente ao conceito de linear, ou o tempo não repetitivos , e isso pode ser visto simbolicamente em seus hieróglifos: o longo, cobra linear do dj som, o pão liso do pão que alimenta o feminino t terminando, e o símbolo da ilha longa sendo o determinante para “terra”. Assim, djet é o tempo terreno, o tempo da terra. (( http://daily.kemet.org/archives/archive-052003.html ))

A soma dos dois era sempre usada para finalizar o ritual:

Djet e neheh são conceitos simétricos e quase sempre são usados ​​juntos, “eternity and everlastingness” em inglês, ou talvez o mesmo que nosso idiomático “forever and ever”. Nos tempos antigos, o ato de purificação ritual era mostrado com os deuses derramando jarros de água contendo o símbolo ankh, ou vida, sobre a pessoa que estava sendo purificada. Dizia-se então que uma pessoa era pura para sempre (djet) e sempre (neheh), ou em ambas as maneiras de contar o tempo, tanto em anos quanto em memória ((ibid. Veja a segunda parte do post no ankh para uma representação de isto.))

Então começamos a ter essa conceituação de um tempo que pertence a esta terra, e um tempo que pertence ao cosmos, ou eventos celestes, equinócios, o movimento do sol e das estrelas, etc.  Neheh é o tempo geracional e se repete, enquanto djet é permanente e imutável na eternidade. O modelo de “um círculo eterno” ilumina ambas as visões, repetição eterna e permanência (cf. 1 Néfi 10:19, observe também o uso duplo de “tempos antigos” e “tempos vindouros”; Mosias 3:5; Alma 7:20; Alma 37:12; D&C 3:2; D&C 35:1; D&C 39:22; D&C 72:3; D&C 132:7, 18-19). Isso também transmite o pensamento de que os deuses eram capazes de mudança eterna enquanto ainda eram imutáveis, uma vez que ambos os símbolos foram concedidos por eles aos reis e rainhas, a repetição de um processo duradouro ad infinitum. Essa percepção do tempo não tem lugar no pensamento ocidental, mas remonta aos antigos. Tal explicação do tempo parece perfeitamente compatível com o discurso de Abraão sobre a multiplicidade de medidas de tempo em Abraão 3. Mais home runs para Joseph Smith.

Claro, Hugh Nibley também adiciona sua voz instigante à conversa:

Otto assevera que, enquanto nhh transmite a ideia de “recorrência interminável do mesmo, o conceito de devir, algo como nosso 'desenvolvimento'”, dt denota “resistência inextirpável”, um estado de estar estabelecido para durar para sempre. A tradução de Thomas Allen do Livro dos Mortos apoia isso, traduzindo nhh como “ocorrência sem fim” ou “recorrência sem fim” e dt como “imutabilidade”. … enquanto A. Bakir tem a ideia de que “… nhh conota o conceito de infinito associado ao tempo antes do mundo … vir a existir”, enquanto “ dt refere-se ao outro infinito … o tempo em que o mundo temporal chega ao fim” … Gardiner tem a mesma ideia, ou seja, que dté “eternidade no passado” e nhh “eternidade no futuro” [ver 1 Néfi 10:19] . Uma distinção clara é feita no Livro dos Mortos, capítulo 17: “Outros . dizer que as coisas que foram feitas são Eternidade ( nhh ), e as coisas que serão feitas são Eternidade dt ).” .

“A nhh- eternidade designa assim a incessante recorrência do mesmo, a infinitude do tempo.” Ele concorda com Thausing que nhh é divisível em anos, enquanto dt não pode ser assim dividido. .

Há um consenso geral de que o tempo como nhh tem um fim, estando vinculado às condições e ciclos deste mundo, enquanto a eternidade como dt é algo sólido e final, escrito com o símbolo da terra, que denota o máximo em solidez inabalável.  Mas todos parecem sentir a razão de fazer uma distinção e associar intimamente as duas ideias para garantir que as ordenanças sejam efetivas tanto “no tempo”, por qualquer meio que escolhermos para medi-lo, quanto “por toda a eternidade”. que não deve ser medido. Esta é a expressão que encerra todas as ordenanças maiores . ((Hugh Nibley, The Message of the Joseph Smith Papyri: An Egyptian Endowment , 2ª ed., 228-32.))

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Variedades históricas do dualismo religioso

Entre civilizações e povos antigos

O dualismo é um fenômeno de grande importância nas religiões do mundo antigo. Os do Oriente Médio serão considerados aqui.

Egito e Mesopotâmia

Embora geralmente não houvesse dualismo explícito na religião egípcia , havia um dualismo implícito no contraste entre o deus Seth e o deus Osíris . Seth, um deus violento, agressivo, “estrangeiro”, estéril, ligado à desordem, ao deserto e à solidão, opunha-se a Osíris, o deus da fertilidade e da vida, ativo nas águas do Nilo. Seth também possuía algumas marcas tipicamente dualistas de um caráter mitológico : sua ação, assim como sua própria personalidade, era ambivalente; e, como um típico trapaceiro, também era capaz, às vezes, de ações construtivas no cosmos. Os mitos de Osíris e Seth podem ser comparados de várias maneiras com aqueles recentemente descobertos entre o Povo Dogon do Sudão ocidental, que contrasta Nommo, um ser primordial fértil e felizmente acasalado retratado em forma de peixe, com Yurugu (“Raposa Pálida”), um personagem infeliz e estéril que vive na selva sem um companheiro. Yurugu é considerado o elemento que completa o universo (o mesmo papel atribuído a Seth no mito egípcio).

O dualismo, em linhas gerais, também estava presente na religião mesopotâmica . Nos mitos relativos à origem dos deuses e do cosmos, a oposição entre as divindades primordiais (Apsu, o Abismo e Tiamat, o Mar) e as novas (particularmente Marduk , o demiurgo , ou criador) apresentava alguns aspectos dualistas . Embora as divindades anteriores tivessem estabelecido a realidade básica do universo – seu núcleo ontológico – por causa de sua natureza caótica e egoísta, elas resistiram à sua própria prole, que mais tarde viria a criar a ordem definida agora existente do cosmos. Um dualismo do ontológico – realidade básica ou ser – versus o cosmológico – a forma ou ordem do universo material – é assim implicitamente afirmado.

https://www.britannica.com/topic/dualism-religion/Historical-varieties-of-religious-dualism

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COMENTÁRIOS

Como vimos na postagem sobre os Mito Cosmogônicos Egípcios ( https://gnosedesi.blogspot.com/2020/10/mitos-cosmogonicos-egipcios-o-demiurgo.html ), Platão se inspira amplamente em mitos egípcios para fundamentar seu pensamento sobre a criação/surgimento do mundo.

Da mesma forma, na parte 2 pudemos perceber, e agora com esta agora, que a doutrina dos Dois Princípios da Realidade é claramente baseada nos princípios de Tempo e Eternidade que, como visto, estruturam toda a realidade no pensamento egípcio.

Uno e o Outro, Eternidade e Tempo, Reino das Divindades (Djet) e Reino Transitório dos Homens (Neheh), é óbvio que Platão fundamentou seu dualismo no Egito e não na Grécia. E é bem capaz que Zoroastro tenha feito o mesmo, pois sua religião é muito idêntica à novidade religiosa monoteísmo do faraó "herege" Akhenaton, anterior ao sábio persa, como dissemos na postagem https://gnosedesi.blogspot.com/2021/06/gnosticismo-e-cabala-qliphotica.html. Parece mesmo que o Zoroastrismo é uma simplificação para as grandes massas da religião metafísica extremamente acurada e transcendente dos egípcios, suas doutrinas esotéricas.

Mas como pode uma cultura semítica ser dualista? E a religião mesopotâmica, a própria definição de religião semita, praticada por povos semitas falantes de línguas semitas, como pode ser dualista?

Na postagem sobre a invenção indo-europeu versus semita não falei algumas coisas mais.

Há acadêmicos que colocam outras coisas que supostamente caracterizam os semitas, como a questão do escutar/ouvir (Shema, Israel seria um exemplo - sendo que Sabedoria para judeu é "saber ouvir") enquanto os indo-europeus buscam a Visão (sabedoria é "enxergar no escuro", saber ver as coisas com clareza). Além disso dizem que indo-europeus tem uma visão cíclica da história (eterno retorno, nada tem um fim) enquanto os semitas tem uma visão linear (tudo teve começo, meio e fim) e que tudo isso estaria muito claro quando colocamos cultura grega versus cultura bíblica, pois a cultura grega é trágica (e herói não tem escolha, sempre morre no final e é vítima do destino, reencarnando para viver a mesma coisa sempre) enquanto homem e cultura semita é dotado de "livre arbítrio" e escolherá seu fim eterno de acordo com suas escolhas. Também dizem que a cultura indo-europeia é dualista enquanto a cultura semita é unitarista. Isso é absurdamente errôneo e problemático.

Ora, pelo aqui exposto sobre Egito e Babilônia conclui-se assim que é muito fraco esse argumento de certos academicistas de que os indo-europeus são dualistas enquanto os semitas são unitários, quando na verdade todo mundo é dualista e todo mundo é unitário. A diferença é que alguns povos acentuam certa característica e deixam outra em segundo plano, mas não existe isso de "povo dualista" e "povo unitário", ou "cultura dualista" versus "cultura monista". É um erro de percepção, uma forçação de barra de um "ismo" sobre culturas que não conhecemos realmente e não deixamos que ELAS nos digam o que elas são. Nós fazemos isso o tempo todo, rotulamos as coisas para tudo ficar mais "claro" no nosso cérebro, na nossa prateleira de livros onde colocamos nossas informações e conceitos sobre a realidade. Tentamos entender e catalogar o mundo através de rotulações mas é preciso tomar cuidado com isso para não cair em reducionismos limitantes e grosseiramente errôneos.

Simplesmente os semitas não ligam muito para visão e dão mais importância para a audição porque sua cultura cresceu e se desenvolveu em climas desérticos e semi-áridos onde o céu é claro a noite e a visão no dia é muito beneficiada pela claridade forte do sol e das areias que refletem sua luz, Veja que foram os semitas que criaram a Astrologia, foi na Mesopotâmia. A audição assim pode muito bem ser apreciada para sua sobrevivência mais do que a visão, visto que é escutando que se percebe a aproximação de inimigos, exércitos e perigos. Ouvir no deserto é importante pois é escutando que se percebe a existência de leitos de água doce, ou a presença de animais indicando águas e oásis próximos. No deserto, a miragem engana pela visão fantasiosa mas a audição não engana e pode salvar vidas.

Já os povos indo-europeus se desenvolveram em climas temperados, com menos sol, mais frio, noites mais escuras e longas no inverno. É óbvio que precisam de muito mais visão do que audição para sobreviver.

Mas ambos tem visão e audição. Ambos percebem uma dualidade óbvia e notória no próprio fato da existência, assim como notam uma certa unidade por trás das coisas.

Na verdade se formos estudar os grandes pesquisadores de religião comparada (Aldous Huxlei, Mircea Eliade, Joseph Campbel, Carl Jung e outros tantos) veremos que eles notam que os mitos e contos quase que dizem as mesmas coisas mas com roupagens bem diferentes. Isso é verdade pois todos somos a mesma espécie, homo sapiens. E mais que isso, a física quântica com seus experimentos demonstrou que tudo o que vemos é produto de uma mesma energia que se condensa até formar prótons, nêutrons e elétrons e, depois, os elementos químicos, moléculas orgânicas, tecidos, órgãos e tudo mais. É a geografia que muda os povos, exerce influência sobre os temperamentos, comportamentos e, consequentemente, ideias. Mas a base é a mesma, o fundo do qual todas as ideias surgem é o mesmo, é o Uno platônico, a Eternidade (Djet) egípcia.

O Profeta Mani foi muito inteligente. Ele mostrou que essas variedades culturais são amplamente combináveis gerando um Todo religioso-espiritual coeso, coerente, clássico e eterno, se você tiver conhecimento (Gnose) e Sabedoria (Sophia) para percebê-lo e demonstrá-lo. Óbvio que tudo teve um começo e tudo terá um fim mas, entre o começo e o fim, há um movimento cíclico. É uma espiral descendo (ou subindo) de cima para baixo. Ela começou e ela terminará mas ela é cíclica ao mesmo tempo, tudo volta a se repetir mas está avançando, está realmente mudando. A ciência está chegando muito próximo disso, veja por exemplo a Sequência de Fibonacci.

Livre arbítrio coexiste com determinismo. Não dissemos isso na postagem sobre as Experiências de Quase Morte? https://gnosedesi.blogspot.com/2021/04/eqm-experiencias-de-quase-morte-sob-um.html

Todo mundo é dualista! Todo mundo percebe que a dualidade está presente em tudo e que uma coisa é diferente de outra coisa, Jesus! 

Todo mundo é Unitário pois todo mundo percebe que a Unidade também está presente em tudo pois uma coisa sempre é necessariamente Uma, inclusive criamos o número 1 para representar essa ideia.

Por isso concluo a postagem com esse poema do Tao Te Ching. Estudem o Taoísmo. Não foi atoa que o Maniqueísmo penetrou profundamente na China e se identificou fortemente com o Taoísmo: 

O Tao gerou Um.
Um gerou Dois.
Dois gerou Três.
Três gerou todas as coisas.

Todas as coisas estão de costas para o feminino
e de frente encaram o masculino.
Quando masculino e feminino combinam-se,
todas as coisas alcançam harmonia.

Homens comuns odeiam a solidão.
Mas o sábio faz uso dela,
abraçando sua solidão,
percebendo que ele é Um
com o universo inteiro.