MOSAICO MOSTRANDO ORFEU TOCANDO LIRA CERCADO DE ANIMAIS ENCANTADOS.
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- O Ovo Cósmico e Chronos: No início, o Tempo (Chronos) — uma divindade primordial abstrata, não o Titã Cronos — criou um Ovo Cósmico. Deste ovo, emergiu Fanes (ou Protogonos, o "primeiro nascido"), o primeiro rei dos deuses, uma entidade hermafrodita e brilhante que continha em si as sementes de todas as coisas vivas e os princípios masculino e feminino do universo.
- A Sucessão Mítica: Fanes estabeleceu a ordem cósmica. Eventualmente, para reabsorver a criação e impor uma nova ordem, Zeus engoliu Fanes, absorvendo o universo e recriando o mundo sob sua égide e leis, tornando-se o soberano do cosmos órfico.
- Dionísio Zagreu: Zeus gerou um filho, Zagreu (o primeiro Dionísio), e o nomeou seu herdeiro. Zagreu era uma divindade da natureza, da renovação e da exaltação mística.
- O Crime dos Titãs: Invejosos do herdeiro divino, os Titãs atraíram o menino Zagreu, mataram-no, esquartejaram-no e devoraram sua carne.
- O Castigo Divino: Zeus, em fúria pelo ato de canibalismo primordial e o assassinato de seu filho, fulminou os Titãs com seus raios, transformando-os em cinzas incandescentes.
- A Natureza Humana Dual: Da mistura das cinzas dos Titãs (matéria rebelde e "má") com os restos de Dionísio (a "centelha divina" que haviam comido), surgiu a humanidade. Portanto, o ser humano é dual: possui um corpo físico (soma) que é mortal e impuro, e uma alma (psychē) que é imortal, divina e pura, mas está exilada.
- Soma Sema (O Corpo-Túmulo): A crença de que o "corpo é um túmulo" (soma sema). A alma está prisioneira do corpo como punição pelo crime ancestral dos Titãs, um estado de impureza (miasma) do qual precisa escapar.
- Metempsicose (Transmigração da Alma): A alma passa por sucessivas reencarnações (o "Kyklos geneseos", a "roda dos nascimentos"), podendo habitar corpos humanos ou animais, até que seja purificada. Esse ciclo podia durar milhares de anos.
- A Libertação (Lysios): O objetivo final é a liberação da alma do ciclo de renascimentos para retornar ao convívio dos deuses, alcançando um estado de bem-aventurança eterna (makarismos).
- Ascetismo e Vegetarianismo Estrito: Abstenção total de comer carne (kreasphagia). Isso se baseava na crença de que animais poderiam conter almas transmigradas e no repúdio ao ato de matar, que ecoava o assassinato de Zagreu.
- Vestuário e Simbolismo: Uso exclusivo de roupas brancas de linho, simbolizando pureza e separação do mundo material e impuro. A lã (produto animal) era frequentemente evitada.
- Proibições Rituais: Proibição de rituais de sacrifício animal (comuns na Grécia clássica) e de contato com a morte ou o nascimento, considerados fontes de impureza ritualística.
- Iniciação (Teletai): Rituais secretos onde o iniciante recebia conhecimentos esotéricos (logoi) sobre o destino da alma e como se comportar no submundo.
- Purificações (Katharmoi): Rituais de lavagem e orações, frequentemente usando água e incenso, para limpar a "culpa titânica" (miasma).
- Guia do Além (As Lamelas ou Tesserae): Os órficos eram enterrados com as famosas Lâminas de Ouro (descobertas arqueológicas em locais como Túrios, Hipônio e Pételeia). Eram pequenas folhas gravadas com instruções específicas para a alma no Hades, agindo como um "mapa" para evitar os perigos e os caminhos errados: "Encontrarás à esquerda a fonte de Lete (Esquecimento); não te aproximes dela. Encontrarás à direita a fonte de Mnemosine (Memória); beba dela e diga aos guardiões: ‘Sou filho da Terra e do Céu estrelado; a sede me consome, dai-me de beber da água fresca do lago da Memória’".
- Hinos Órficos: Uma coleção de 87 poemas curtos, provavelmente do período imperial romano, dedicados a várias divindades órficas e usadas em contextos rituais e litúrgicos.
- Teogonias Órficas: Narrativas épicas sobre a criação do mundo (como a Teogonia de Derveni, preservada no Papiro de Derveni, o manuscrito mais antigo da Europa, datado do século IV a.C.).
- Poemas de Orfeu: Textos sobre descidas ao inferno (Katabasis) e instruções rituais.
- Pitagorismo: Influenciou diretamente a escola de Pitágoras, que adotou a metempsicose e o vegetarianismo.
- Platonismo: A filosofia de Platão, com seu dualismo corpo-alma, a teoria da Reminiscência (anamnesis) e o uso de mitos escatológicos (como o Mito de Er), deve muito ao Orfismo.
- Cristianismo Primitivo: Elementos como a ideia de pecado original, a imortalidade da alma e a salvação através da graça e do ritual (especialmente a Eucaristia, vista por alguns como um paralelo ao "banquete" dionisíaco purificado) têm raízes na teologia órfica.
- A Prisão Material: Ambos compartilham o conceito de que o mundo material é uma prisão ou um erro. No Orfismo, o corpo é o túmulo (Soma Sema); no Gnosticismo, a matéria é obra de um Demiurgo ignorante.
- A Centelha Divina: O "fragmento de Dionísio" no Orfismo é idêntico à "centelha de luz" (Pneuma) gnóstica que deve ser despertada pela Gnosis (conhecimento).
- A Viagem da Alma: As Lamelas de Ouro órficas (instruções para o pós-morte) funcionam exatamente como os manuais gnósticos para atravessar os Arcontes (guardiões planetários) e retornar ao Pleroma.
- O Ciclo de Renascimentos: O conceito órfico de Kyklos Geneseos é o equivalente grego ao Samsara. Ambos veem a reencarnação não como uma oportunidade, mas como um sofrimento a ser superado.
- Libertação: O objetivo órfico de cessar os renascimentos espelha o Nirvana. A diferença é que, no Orfismo, a alma mantém uma identidade divina, enquanto no Budismo original (Anatta), a ideia de um "eu" permanente é rejeitada.
- Luz vs. Trevas: O Maniqueísmo (fundado por Mani) leva ao extremo o dualismo órfico. Se no Orfismo a mistura é cinzas titânicas + dionisíacas, no Maniqueísmo a humanidade é o campo de batalha onde partículas de Luz divina estão presas na Matéria maligna.
- Ascetismo: Ambos exigem o vegetarianismo e a castidade (ou moderação extrema) para evitar o fortalecimento da substância material em detrimento da espiritual.
- Ahimsa: O vegetarianismo órfico baseava-se na ideia de que matar um animal era assassinar um parente (devido à transmigração). Isso se alinha perfeitamente ao conceito jainista de Ahimsa (não-violência absoluta).
- Karma: Embora o termo seja indiano, a ideia órfica de "pagar a pena de crimes antigos" através do sofrimento físico e das sucessivas vidas é uma forma primitiva de Karma.
- Cosmogonia: O Ovo Cósmico de Fanes guarda semelhanças com o mito de Pangu no Taoísmo, onde o universo nasce de um ovo onde o Yin e o Yang estavam misturados.
- Retorno à Origem: O esforço órfico de retornar ao estado de Fanes assemelha-se à busca taoísta de retornar ao Tao primordial, despojando-se das complexidades e corrupções da vida social.
- Retorno à Unidade: O conceito de Fanes como a unidade original que foi fragmentada ecoa o retorno ao Tao (a fonte indiferenciada).
- Microcosmo/Macrocosmo: A ideia de que o corpo humano contém os elementos do universo (cinzas titânicas/partículas divinas) é central tanto na alquimia interna taoísta quanto no misticismo órfico.
- Julgamento Pós-Morte: O Orfismo introduziu na Grécia a ideia de um tribunal no Hades. Isso ecoa a Ponte Chinvat do Zoroastrismo, onde as ações do indivíduo determinam seu destino.
- Dualismo Ético: A luta entre o bem (Ahura Mazda) e o mal (Angra Mainyu) reflete a tensão interna humana entre a centelha dionisíaca e a natureza titânica.
- Pecado Ancestral: O mito do crime dos Titãs contra Dionísio oferece uma estrutura teológica para o conceito de Pecado Original. No Orfismo, o homem já nasce "culpado" por um evento pré-histórico, necessitando de um processo de redenção.
- Dionísio e Cristo: Pesquisadores de religiões comparadas frequentemente notam que Dionísio (o deus que morre, é despedaçado e renasce) serviu como um protótipo cultural para a recepção da figura de Cristo no mundo helenístico, especialmente na ideia de um deus cujo sacrifício oferece vida eterna aos seguidores.
- 8. Religião Egípcia
- O Julgamento: A escatologia órfica reflete o Tribunal de Osíris. A necessidade de fórmulas mágicas e geográficas para o pós-morte (contidas nas Lamelas de Ouro) é uma adaptação grega do Livro dos Mortos egípcio.
- Dionísio e Osíris: Heródoto já identificava Dionísio como a versão grega de Osíris, ambos deuses de regeneração.
9. Religiões Tibetanas (Bön e Budismo Vajrayana)- O Estado Intermediário: As instruções das Lamelas de Ouro para a alma não beber da fonte do esquecimento assemelham-se às orientações do Bardo Thodol (Livro Tibetano dos Mortos) sobre como reconhecer a luz clara e evitar as ilusões do bardo para não reencarnar.
- Cosmogonia: O Ovo Cósmico órfico encontra paralelo direto no mito de origem do Yungdrung Bön (o Lubum Trawo), onde o universo também emerge de um ovo primordial.
- Textos: O Orfismo é uma "religião do livro" (diferente da tradição oral homérica). Destacam-se as Teogonias Órficas e os Hinos Órficos.
- Regra de Ouro: O Orphikos Bios (Vida Órfica) exigia: vegetarianismo, roupas de linho branco, abstenção de rituais de sangue e a guarda de segredos iniciáticos.
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