quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Lo Boièr - Hino Cátaro: pequena explicação

Atenção leitores!

As postagens da série A Fé Gnóstica continuarão, porém entre elas haverá postagens de outros temas correlatos ou não, para que o blog não se desvirtue do seu propósito. As postagens da série A Fé Gnóstica são longas e trarão informações não muito práticas, o que tornaria o blog um pouco aborrecedor para quem deseja algo mais claro e direto.

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LE BOUVIER - Hino Cátaro

Vamos ouvir e depois comentar:




LE BOUVIER – LO BOYÈR – HINO CÁTARO

TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS:

Da lide torna o pastor à casa
Da lide torna o pastor à casa
Pondo à soleira o cajado
AEIOU
Pondo à soleira o cajado.

Encontra a esposa ao pé do fogo
Encontra a esposa ao pé do fogo
Toda desconsolada
AEIOU
Toda desconsolada

Se estais doente, diga-me sim.
Se estais doente, diga-me sim.
Que lhe farei uma sopa.
AEIOU
Que lhe farei uma sopa.

Bem quente, com couve e nabo.
Bem quente, com couve e nabo.
E uma pomba magra.
AEIOU
E uma pomba magra.

Quando morrer quero que me enterrem
Quando morrer quero que me enterrem
Lá no fundo do porão
AEIOU
Lá no fundo do porão.

Ponha os meus pés junto da parede
Ponha os meus pés junto da parede
E a cabeça sob a torneira
AEIOU
E a cabeça sob a torneira.

E o peregrino que aqui passar
E o peregrino que aqui passar
E a água benta procurar
AEIOU
E a água benta procurar

Ao perguntar: Quem é o morto?
Ao perguntar: Quem é o morto?
É a pobre Joana!
AEIOU
É a pobre Joana!

Que foi alçada ao paraíso!
Que foi alçada ao paraíso!
Ao céu com suas ovelhas
AEIOU
Ao céu com suas ovelhas.

COMENTÁRIOS


Le Bouvier é uma música tradicional francesa, da região da Occitânia, que abrange o sul da França e boa parte da Catalunha na Espanha. É uma canção cátara. Os cátaros, como trateremos em postagens adiante, foram uma importante parte do gnosticismo medieval, de um movimento que é inspirado no gnosticismo clássico e histórico mas que possui elementos que o diferenciam, podendo ser encaixado no grupo que é conhecido como "gnosticismo medieval", junto com os Paulicianos e os Bogomilos e, talvez os Priscilianos.

Eu prefiro chamá-los de Novos Gnósticos, pois o motivo, o anseio e a base doutrinária é exatamente a mesma dos antigos gnósticos, apenas diferenciando a linguagem, a organização eclesiástica e alguns dogmas e práticas.

Os cátaros são chamados por alguns historiadores de "budistas ocidentais". Eu discordo disso. Observando suas práticas e doutrinas, acredito que eles na verdade são Jainitas ocidentais. Há fortes semelhanças entre essas duas religiões, entre elas: crença na reencarnação; o mundo material como prisão da alma; vegetarianismo, não-violência, desapego dos desejos e bens materiais, ascetismo como o caminho para libertação do ciclo de reencarnações e do sofrimento, entre outros.

Uma semelhança intrigante é a da prática da Endura dos cátaros com a Salekhana ou Santhara dos jainas. A Sallekhana é um jejum muito longo indicado como um dos caminhos para a libertação da escravidão sob os desejos e da matéria e é indicada para aqueles que escolheram o caminho ascético (os monges), não sendo obrigatória para os leigos mas indicada contanto que guiada por um asceta jaina. Acabou se tornando uma prática comum entre jainas que estão muito doentes ou prestes a morrer, para aliviar o sofrimento e impedir o ciclo de reencarnações.

Já a Endura cátara era praticada por pessoas em perigo iminente de morte, ou seja, os doentes graves e idosos e só permitida após o sacramento do Consolamentum, pois somente seria eficaz contra a reencarnação e permitiria a libertação da alma se o Consolamentum fosse ministrado.

As diferenças entre as duas são bastante claras: os Cátaros criam em dois princípios originários, o Bem e o Mal. O mal personificado em Satã criou o mundo material. As almas são divinas, são anjos de origem celestial e foram aprisionadas no corpo material por Satã. O mundo está destinado a destruição pois é corrupto e fruto do Mal, que será destruído pelo Bem.

Já os jainas não creem num Deus, muito menos na criação, seja ela fruto do deus do Bem ou do falso deus do Mal. O nosso mundo é eterno, num estado de auto-mudança constante e, por isso, inconstante. Existem outros mundos melhores e piores e o objetivo do ser humano é livrar sua alma desse mundo ruim em que vivemos para um mundo melhor. No entanto, apesar de não crerem num Deus, com o tempo a crença em seres divinos nos mundos superiores passou a ser uma prática corriqueira, e estes foram associados aos grandes mestres e ascetas do passado jaina, mesmo que tal prática e crença não seja absoluta ou obrigatória.

A Letra


Voltando ao Le Bouvier, trata-se de uma canção tradicional do século XIII, em língua Occitana, que traz uma mensagem codificada em símbolos, parcialmente desvendada nos dias de hoje.

A canção é melancólica e triste, pois o tema é a perseguição e destruição do catarismo pelas Cruzadas e pela Inquisição. O autor, ou os autores, fala da pobre Joana que está desconsolada, sendo posta ao Fogo e que em breve encontrará o paraíso. Joana é consolada pelo Pastor, seu esposo, que prepara uma bela refeição para recebê-la.

Joana é claramente a Igreja Gnóstica, perseguida desde seu surgimento como o Antigo Gnosticismo da idade antiga e persistente na idade média como Novo Gnosticismo.

Porque Joana? Talvez porque, segundo os textos cátaros, o evangelho preferido, a escritura mais lida e adorada por eles era o Evangelho de João. Também porquê, segundo o Novo Testamento, João é o discípulo mais amado por Jesus.

Porque o Pastor prepara uma pomba como refeição? Talvez seja uma referência evangélica ao Espírito Santo. Os cátaros são aqueles que receberão o Espirito Santo e serão Um com Deus, porque renunciaram ao mundo, aos desejos e a si mesmos para servir a Deus.

Joana achou que estar ao pé do fogo seria seu fim, mas nós estamos aqui! Suas ovelhas, Joana, estão aqui ainda, na lide, lutando pela sua libertação!

A Perseguição e o extermínio dos Cátaros


Illustration from the illuminated manuscript Grandes Chroniques de France depicting the burning of Amalrician heretics before King Philip II of France, 1210. In the background is the Gibbet of Montfaucon and, anachronistically, the Grosse Tour of the Temple fortress. Jean Fouquet (1455-1460), Bibliothèque nationale de France, Paris.

Os cátaros incomodaram muito o papado porque reformaram praticamente toda a região sul da França e uma boa parte do nordeste da atual Espanha, ou seja, a Occitânia. Sabemos, pelos registros dos próprios inquisidores, que cidades inteiras, padres e bispos e paróquias inteiras se converteram ao catarismo naturalmente, sem imposição. Os católico-romanos eram tolerados, pois não havia perseguição contra outras religiões. Quem perseguia era a seita de roma. A Cruzada Albigense e a Inquisição foram criados para combater o catarismo, não pela persuasão ou argumentação, mas pela guerra, tortura e morte. Os cruzados, não sabendo diferenciar entre católicos e cátaros, acabaram matando todos que viam, seguindo a ordem de Arnaud Amalric: Mate todos. Deus saberá distinguir os seus!

Só na cidade de Beziers, na porta da igreja de Santa Maria Madalena, 7.000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças foram mortos pelos cruzados. Fora os outros pontos da cidade, que no total chegou a 20.000 mortos. Isso só em Beziers. Houveram massacres e condenações à fogueira em praticamente todo a Occitânia.

São Bernardo de Clairvaux disse a respeito dos cátaros:

Se você questionar a heresia sobre sua fé, nada é mais cristão; se sobre sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ele diz, ele provará por suas ações... No que diz respeito a sua vida e conduta, ele não engana a ninguém, não passa à frente de ninguém, não faz violência a ninguém. Além disso, suas faces são pálidas de jejum, ele não come o pão da preguiça, ele trabalha com suas mãos e, assim, faz sua vida. As mulheres estão deixando seus maridos, os homens estão deixando de lado suas esposas, e todos eles migram para a heresia! Clérigos e padres, o jovem e o adulto, entre eles, estão deixando suas congregações e igrejas, e são encontrados frequentemente na companhia de tecelões de ambos os sexos." 


Uma reflexão pessoal


Sempre tive algum tipo de sensação muito ruim em relação ao catolicismo romano. Nunca consegui gostar ou me sentir bem em suas paróquias. Sempre me senti muito mal com suas doutrinas e dogmas e até em seus templos não consigo ficar muito pois um mal estar sempre aparece. Hoje penso que talvez possa ter sido um cátaro perseguido numa encarnação passada. É realmente muito forte a identificação que tenho com os textos gnósticos e com esses tipos de doutrinas que tratam da alma e da mente. E com os cátaros é mais forte ainda. Mesmo sendo ignorante com os gnósticos, em relação aos cátaros estranhamente tive muito apreço por eles. Talvez isso não passe de um simples e forte apreço, de uma identificação meramente de gostos e preferências. Ou não. Enfim, existem momentos que sentimos que há algo maior, muito maior do que nossa percepção falha, por trás dos acontecimentos na vida. São sensações muito profundas que não parecem surgir do nada mas que veem de muito tempo...



O que significa a repetição dessas vogais, AEIOU?


Em cada estrofe há a estranha e intrigante repetição dessas vogais. Em minhas pesquisas e leituras, acabei encontrando essas mesmas vogais em... TEXTOS GNÓSTICOS!

O primeiro em que encontrei algo semelhante foi o Evangelho dos Egípcios (O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível). O livro começa falando do Grande Espírito Invisível (o Pai) e dos Poderes que surgiram dele ou foram emanado dele (3 poderes, Pai, Mãe e Filho). Mas antes dos 3 poderes, surgiu um Domedon Doxomedon que é o próprio primeiro Pai e o Grande Espírito Invisível. Existem dois Pais, um que é o Grande Espírito Invisível e outro que foi emanado dele. Falando desse Pai, o texto diz:

"Surgiu Domedon Doxomedon, o aeon dos aeons, e o trono que está nele, e os poderes que o rodeiam, as glórias e as incorruptibilidades. O Pai da grande luz que surgiu do silêncio, ele é o grande Doxomedon-Aeon, no qual a criança tri-masculina repousa. E o trono de sua glória foi nele estabelecido, este único no qual o seu nome inominável está inscrito, na placa [...] única é a palavra, o Pai da Luz de tudo, ele surgiu do Silêncio, enquanto repousava em silêncio, ele, cujo nome é um símbolo invisível. Um mistério invisível e oculto surgiu:

iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiioooooooooooooooooooooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaammmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

E dessa forma, os três poderes deram louvores ao Grande Espírito Invisível, inominável, virginal e intocável, e seu virgem masculino".

Então, temos a informação que a Trindade de seres divinos Pai, Mãe e Filho louvam a deus com essas estranhas vocalizações. Note que cada letra é repetida 22 vezes e ao final há a letra m além das vogais.

Alguns estudiosos dizem que Domedon significa "Senhor da Casa" e Doxomedon seria "Senhor da Glória", e Doxomedon seria um neologismo criado pela transformação de Domedon acrescentando Doxa a ela. Eu não acredito muito. Descobri que Domédon significa Abóbada, Domo. Doxo significa Glória mesmo.

Portanto, Doxomedon pode ser um neologismo, uma palavra inventada pelos autores do texto, mesclando Abóbada com Glória, querendo criar um novo nome que signifique  talvez Abóbada Gloriosa.

É importante saber que os judeus antigos tinham um costume, visto mais claramente nos apócrifos judaicos, de judaizar palavras estrangeiras para assimilá-las em sua própria mitologia, acrescentando EL ao final. Parece que foi isso que fizeram com a palavra Domiel, um anjo do judaísmo que tem fortes semelhanças com a descrição de Domédon nos textos gnósticos. Inclusive no próprio Evangelho dos Egípcios vemos um Poimael, que parece ser a judaização de Poimandres do Corpus Hermeticum.

Temos que lembrar que muitos dos povos antigos do oriente médio, incluindo os babilônicos, acreditavam que a Terra estava envolta de uma Abóbada. E mais ainda, as mitologias descreviam que existiam mundos superiores um em cima do outro, ou seja, várias abóbadas ou esferas celestes. Geralmente, essas abóbadas eram em Sete, tendo uma oitava abóbada (Ogdoad) acima, sendo a superior e a única em que habitava  totalmente e em total poder o Deus único e poderoso. No próprio Corpus Hermeticum, ensina-se que a alma humana deve buscar subir para essas esferas superiores.

Portanto, faz todo sentido que Domedon Doxomedon signifique algo como "abóbada, gloriosa abóbada" pois ela é o próprio Pai de tudo, o lugar mais elevado, de onde tudo surgiu, o estado mais elevado que qualquer ser pode alcançar. 

Portanto, as emanações adoram ao Espírito Invisível através dessa vocalização iiiooouuueeeaaammm.

Mais a frente no texto, próximo ao final, temos mais estranhas vogais:

"I ieus M ou M Mua! É real e verdadeiro, Ó Yesseus Mazareus Yessedekeus, Ó água viva, Ó criança da criança, Ó glorioso nome, real e verdadeiro, aimn o mn (ó aeon existente), iiii eeee oooo uuuu mmmm aaaaa, real, verdadeiro, i aaaa mmmm, Ó aquele que existe e que vê os aeons! Real, verdadeiramente, aeeiiiiuuuuuummmmmmmm, aquele que é eternamente eterno, real e verdadeiro, ia aim, no coração, aquele que existe, u aei eis aei, ei o ei, ei os ei (filho para sempre, Tu és o que tu és, Tu és quem tu és!)"

Agora nesse trecho trata-se de Yesseus Mazareus Yessedekeus e ficará para outra postagem falar sobre esse ser. De novo essas vogais estão em um contexto de adoração e louvor a um ser muito superior, que é a "água viva".

O próximo texto em que encontrei esse tipo de vogais é justamente um texto hermético! O Discurso Sobre a Ogdóade e a Enéade (Sobre a Oitava e a Nona) não é um texto gnóstico no sentido exato do termo mas um tratado hermético, daqueles que compõem o Corpus Hermeticum, mas não conhecido. É um tratado desconhecido. Sabemos que muitos textos herméticos se perderam, e nos chegaram somente uma pequena parte deles. Parece que encontramos mais um.

No texto, temos um diálogo onde um Mentor Espiritual (no original grego Mystagogue, que equivale a Guru) que orienta um estudante no conhecimento místico. A oitava e a nona são justamente as esferas Oitava e Nona, que são as esferas onde começaria o Reino Divino e Celestial, onde a alma encontra Paz e Bem-Aventurança. Acima delas ainda há uma melhor ainda, a Década, onde Deus habitaria em seu poder total.

Agora vejamos esse trecho:

"Vamos orar, meu pai:

'eu clamo a ti, o qual reina sobre o reino do poder, cuja palavra vem como um nascimento de luz. E tuas palavras são imortais. Elas são eternas e imutáveis. Ele é aquele que cuja vontade gera a vida para as formas em todo lugar. Sua natureza dá forma à substância. Por meio dele as almas do Oitavo e os anjos se movem [...] aqueles que existem. Sua providência alcança qualquer um [...] gera qualquer um. Ele é aquele que [...] o aeon entre os espíritos. Ele criou tudo. Ele, que é independente, cuida de tudo. Ele é perfeito, o Deus Invisível a quem nos dirigimos em silêncio - sua imagem se altera quando é orientada, e governa - o poder todo-poderoso, o qual é exaltado acima da majestade, o qual é melhor que o mais honrado, Zoxathazo a ee iii ii ooooo uuuuuu Zozazoth.'"

E mais a frente, lemos no mesmo texto:

"Graça! Depois dessas coisas, ofereço meu agradecimento cantando um hino para ti. Pois tenho recebido de ti a vida, quando me fizeste sábio. Eu te louvo. Chamo o teu nome que está guardado dentro de mim: a ee iii ooooo uuuuuu. Tu és o único que existe com o espírito. Eu canto a ti um hino em reverência."

Outro texto em que encontrei esses tipos de vogais é o texto Marsanes, também na biblioteca de Nag Hammadi, como os outros. Vejamos:

"Porém, estou falando contigo quanto aos três...formatos da alma. O terceiro formato da alma é... é um formato esférico, posicionado depois dela por meio de vogais simples: eee, iii, ooo, uuu. Os ditongos são os seguintes: ai, au, ei, eu,iu, ou, u, oi, ii, i, Mi, auei, euiu, oiou, ggg, ggg, ggg, aiau, eieu, iu, oiou, mu, ggg, ggg, aueieu, oiou, u, três vezes para uma alma masculina. O terceiro formato é esférico. O segundo formato, sendo colocado depois delas, possui dois sons. O terceiro formato da alma masculina consiste de vogais simples: aaa, eee, iii, ooo, uuu. E esse formato é diferente do primeiro, mas elas se assemelham umas as outras, e elas transmitem sons comuns desse tipo: aeio. E delas são extraídas os ditongos"

Esses foram os textos gnósticos em que encontrei algo parecido com a vocalização das vogais no hino cátaro Le Bouvier.

Ao que tudo indica, essas vocalizações são espécies de mantralizações gnósticas, através das quais se ajuda a alma humana a se afastar do mundo material e a se aproximar dos mundos espirituais, ou seja, de Deus.

No Evangelho dos Egípcios, os três grandes deuses adoram ao Único Deus justamente vocalizando assim. Ou seja, isso seria a forma mais elevada de adoração. Qualquer palavra, texto sagrado, hino, oração ou coisa parecida é inferior para se adorar e glorificar a Deus.

Ao que parece, a vocalização mostra que Deus é Aquele que É o que ele É. Ele é o Ser, a ideia de Ser total e perfeita, da qual todos os seres vieram por participação. As vogais em Marsanes são consideradas superiores às semivogais, que são superiores às consoantes.  Isso significa que as consoantes são complexas e múltiplas demais, dizem muitas coisas e tem variados sons, ou seja, são duais e multiplas. Já as vogais são simples, porém Unas - emanam certo tipo de energia que nos leva a uma sensação de Unidade e Contemplação calma e tranquila, porém infinitamente poderoso a ponto de nos arrebatar. E mais ainda, Marsanes diz que a própria alma humana é feita dessa mesma substância das vogais...

A Alma Humana só consegue alcançar Deus através das vogais, ou seja, através da pura Existência, pura Contemplação do Ser, sem pensamentos ou definições.

Mas como isso é possível?

É aqui que chegamos ao hinduísmo.


Mandukya Upanishad: o significado de AUM


Vamos ler alguns capítulos da Mandukya Upanishad e alguns comentários de Shankaracharya e Carlos Alberto Tinôco:

INVOCAÇÃO

OM... Com os nossos ouvidos, ouçamos o que é bom. Com os nossos olhos, contemplemos vossa integridade. Tranqüilos no corpo, possamos nós, que vos veneramos, encontrar descanso. Om... Paz – Paz – Paz. 


HARI OM! Om, esta palavra representa o todo universal visível. Sua explicação é a seguinte: tudo quanto ocorreu, está ocorrendo e ocorrerá, em verdade tudo isso é o som OM. E o que está além desses três estados do mundo temporal, isso também, em verdade, é o som OM. 


Tudo isto (dito com um gesto do braço, indicando o universo que nos rodeia) é Brahman. Este Atman (colocando a mão sobre o coração) também é Brahman. Este Atman tem quatro partes (pada).

...


Este mesmo Ser (Atman), é agora descrito como a sílaba OM (AUM); as quatro partes acima descritas do Eu são idênticas aos componentes de sílaba, e os componentes da sílaba são idênticos às quatro partes do Eu. As letras da sílaba são A, U e M. 

9
Vaishvanara, o estado de consciência comum a todos os homens – cujo campo de definição é o estado de vigília – é o som A, a primeira letra de AUM, porque tudo abarca e é o primeiro. Quem assim sabe (ya evam veda) abrange todos os objetos desejáveis e se torna o primeiro dentre os grandes.  

10
Taijasa (o Resplandescente), cujo campo de definição é o estado de sonho, representa o som da letra U, porque é o estrato dos outros dois, contendo suas qualidades. Quem assim compreende, obtém Conhecimento Superior; em sua família, ninguém nasce ignorante de Brahman. 

11
Prajna (o Conhecedor), cujo campo de definição é o sono profundo, é o som da letra M, porque é a medida na qual tudo entra, tornando-se uno. Quem assim sabe, é capaz de medir tudo e contém tudo dentro de si mesmo. 

12
Turya é o quarto estado cujo campo de definição é destituído de som e sem partes, não está relacionado a nada; é a cessação dos fenômenos; é impronunciável; é o repouso último de todas as manifestações diferenciadas, é pacífico e bem-aventurado, não-dual. OM (AUM) é verdadeiramente o Atman. Quem sabe isto, une o seu Ser com o Atman – sim, quem sabe isto. 

COMENTÁRIO INTRODUTÓRIO POR SHANKARACHARYA:

O presente tratado revela os meios de se atingir um [O] fim, ou seja, o Autoconhecimento. Isto satisfaz, ainda que indiretamente, a característica de um tratado vedântico: indicar o assunto a ser discutido e o fim a ser alcançado. 

Qual é, então, o fim maior a ser alcançado na vida? O Atman, quando se identificando à condição humana, percebe a multiplicidade do mundo em decorrência da dualidade sujeito-objeto. Quando a referida dualidade é destruída, o Atman percebe a si mesmo como independente da miserável condição humana. A realização da Não-Dualidade é o fim maior da vida humana. A multiplicidade, oriunda da dualidade, é produzida por avidya (ignorância); ela é destruída por Vidya (o Conhecimento de Brahman). Este tratado foi elaborado objetivando revelar o Conhecimento de Brahman. 

O primeiro capítulo, com sua ênfase em textos védicos, é dedicado a determinar o significado da sílaba OM (AUM), através do que se pode conhecer a essência do Atman. O segundo capítulo procura estabelecer, através da razão, a irrealidade da dualidade. O objetivo do terceiro capítulo é demonstrar, através da razão, a verdade sobre a Não-Dualidade, ao ser destruída a visão dual da realidade. Por último, o quarto capítulo objetiva a refutação de outras escolas de pensamento, antagonistas dos Vedas e oposta ao Conhecimento da Realidade Não-Dual, ao apontar a insustentabilidade delas, quando considera as contradições mútuas presentes nesses sistemas. 



Comentários de Carlos Alberto Tinôco

O primeiro verso sugere a existência de duas esferas ou planos de existência: a) o plano material e visível, onde as manifestações temporais e espaciais surgem e desaparecem; b) o plano transcendente e intemporal, o plano do Ser imperecível, insondável pela razão, situado acima e ao mesmo tempo, identificado com o primeiro. Ambos são simbolizados pela sílaba OM. 

O segundo verso apresenta a doutrina da não-dualidade. A essência dos fenômenos macroscópicos é idêntica à dos fenômenos microscópicos. O complexo universo com todas as suas manifestações, abrangendo do grosseiro ao sutil, a vida e sua complexidade, podem ser abordados a partir do interior da consciência humana, ou a partir de fora. 

No terceiro verso há referências ao estado de vigília, o estado de consciência do homem integrado ao mundo fenomênico. A referência ao número [de] sete [membros] é obscura. [Mas os] membros do Atman Universal [são]: a) a cabeça (o céu); b) o olho (o sol); c) a respiração (o vento); d) o torso (o espaço); e) os rins (a água); f) os pés (a terra); g) a boca (o fogo). [Essa] explicação é um pouco forçada, embora forneça a idéia básica. As dezenove bocas referidas no texto, são identificadas como sendo os cinco sentidos (jnanendriya), as cinco faculdades de ação (karmendriya), que são a fala, a ambição, a locomoção, a reprodução e a excreção; os cinco tipos de Prana (Prana, Apana, Udana, Samana e Vyana) e os quatro componentes da mente ou seja: u) manas, a mente; v) buddhi, a faculdade de decidir; x) ahmakara, o ego; z) chitta, a substância mental. 

O quarto verso se refere ao Eu que sonha, contemplando os objetos sutis, luminosos, magicamente evanescentes e belos, no mundo situado por trás das pálpebras. Taijasa se alimenta das recordações oníricas, assim como Vaishvanara se alimenta dos objetos grosseiros do mundo. Seus “membros” e “boca” correspondem aos daqueles que desfrutam a consciência de vigília. 

O quinto verso é a culminância do texto. Descreve a glória do Prajna, o “Conhecedor”, Senhor da consciência do sono sem sonho. É o terceiro campo ou estado de consciência. 

O sexto verso é mais profundo. Faz referência ao Eu real que finalmente tem que se conhecer. É o quarto estado ou nível do Eu, situado além do nível do sono sem sonho.

O sétimo verso diz que cada um dos níveis de consciência dissolveram-se um no outro, à medida que a ampliação do discernimento se deslocava de um nível para o seguinte. Os quatro níveis ou estados de consciência, reunidos, constituem o conjunto da existência de “quatro pés”, “bem afirmada”, solitária, que é o Eu (Atman). Cada nível está apoiado sobre as mesmas bases dos anteriores. Nessa viagem espiritual, a ênfase dada ao mundo exterior se desloca para o interior da consciência. Os estados inferiores e os superiores coexistem. 

Os cinco últimos versos analisam os quatro estados de consciência, as quatro partes ou quatro pés do Eu, relacionando-os com a sílaba OM, idêntica ao Eu. OM pode ser examinado como AUM. A = estado de vigília; U = estado de sonho; M = estado de sono sem sonho. O silêncio, designado por Turiya, é o quarto estado de consciência. Os quatro estados reunidos formam o conjunto total global do Atman-Brahman dado pela sílaba OM . Quando se pronuncia a sílaba OM, o som nasce, cresce e descreve em tonalidade, chegando finalmente ao silêncio total. O silêncio deve ser integrado ao conjunto total da sílaba mística. Analogamente, o mesmo ocorre com os quatro estados de consciência do ser, como transformações da existência única.

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COMENTÁRIOS


São muitas as semelhanças entre o que os textos gnósticos dizem sobre as vocalizações aeiou e o que a Mandukya Upanishad nos ensina sobre o mantra OM.

Como já dissemos em outros artigos, houve interação entre missionários budistas, ascetas jainitas e populações gregas e romanas, principalmente em Alexandria no Egito, que era um ponto de encontro entre a cultura grega e européia e as culturas do oriente mais distante. A rota mais rápida e segura para pessoas irem do mediterrâneo para a Índia era através do Mar Vermelho, que divide a áfrica da ásia. Dali, passando pela costa da penísula arábica, rapidamente se chegava à Índia, sem precisar enfrentar os exércitos da Pérsia e os perigosos desertos e montanhas da região.

Portanto, é plenamente plausível que houvesse um sincretismo no Egito, não só entre a cultura grega e egípcia, mas da persa, arábica, indiana e etc. E o fato de relatos históricos confirmarem a presença de pregadores das tradições Sramana (heterodoxias da índia), como o budismo e jainismo, em Alexandria, indica que houveram influências mútuas entre essas tradições e a cultura predominante no Egito nesse período, que era justamente a cultura helenística, onde a cultura grega se sincretizava fortemente com as culturas orientais locais.

Pela posteridade dos textos egípcios que citamos em relação aos textos indianos, podemos dizer que foram os gregos e egípcios influenciados pelas tradições indianas que produziram os textos aqui citados.

No caso, então supostamente a vocalização das vogais AEIOU de forma prolongada parece ser uma adaptação ou alteração da sílaba OM. OM ou AUM aparece pela primeira vez justamente nas Upanishads, e estas não ultrapassam o período de composição como sendo do século VII antes de Cristo. Algumas Upanishads mais novas datam do período budista, entre os séculos III e I antes de Cristo, refletindo em seus textos algumas concessões a idéias budistas e jainistas que confrontavam ideias hindus.

Fica, no entanto, como incógnita o fato de terem os egípcios aprendido dos indianos ou o contrário a respeito da meditação. Já falamos sobre a Kabash egípcia no artigo sobre Akenaton. Mas o que temos certeza é que a parte central da filosofia platônica, a Teoria das Ideias, foi retirada da religião esotérica egípcia, conforme Platão mesmo disse e como já dissemos no artigo sobre a Origem Egipcia das doutrinas de Platão. Ou seja, havia no Egito realmente uma forte tradição mística que via no afastamento das sensações materiais e na concentração do pensamento nas Ideias mais elevadas uma forma de experiência de um verdadeiro conhecimento sobre a realidade.

O Discurso sobre Ogdoad e Enead diz algo bem revelador, como vimos acima:

Eu te louvo. Chamo o teu nome que está guardado dentro de mim: a ee iii ooooo uuuuuu.

Falando sobre Deus, o Único digno de louvor, o filho, ensinado por Hermes Trismegisto, diz que o Nome de deus está dentro dele, e então vocaliza.

Isso parece indicar exatamente o que acima se postou na Mandukya Upanishad e que está em todas as Upanishads e em toda a Vedanta, que é a identidade entre Atman, a Alma Humana, e Brahman, o Deus Inefável e absoluto.

O que ambos dizem para nós é que Deus já está dentro de nós, mas nós não o encontramos. Ele é a Voz do Silêncio, a vogal cantada, vocalizada eternamente, o Ser, a Existência sem formas, sem ideias, sem concepções, definições ou pensamento. Deus é o Puro Ser, a pura Percepção da Realidade, Aquele que É.

Sobre as partes da Alma em Marsanes, parece que o texto gnóstico fala a mesma coisa que os capítulos da Mandukya Upanishad a partir do 4 até o 8, que foi explicado acima no comentário à Mandukya. A alma possui várias partes, que são estados de consciência que variam de uma certa razão objetiva voltada para fora até uma auto-contemplação infinita, voltada para dentro (Vaishvanara - A, Taijasa - U, Prajna - M e Turya/Silêncio). 

Todas, no entanto, são partes do Atman Universal, e parece que é isso que o texto Marsanes está querendo ensinar, identificando as partes da alma às vogais, cada uma tendo uma função, assim como o AUM explicado, em que cada letra tem uma função.

Cada função, cada vogal, é um Estado de Consciência. Os três primeiro, AUM levam ao quarto, Turya ou Silêncio. Turya é o silêncio após o término da vocalização, uma etapa fundamental de pura consciência, desenvolvida, como os outros, a medida que se pratica mais e mais a vocalização.

Assim, podemos concluir que os cátaros praticavam certos exercícios espirituais que se identificam com as Mantralizações hindus. E através deles experimentavam uma nova concepção da realidade, deixando a ignorância de lado e alcançando o conhecimento. Tais exercícios vieram dos gnósticos antigos, que por sua vez parecem ter aprendido dos filósofos egípcios.

Um outro tipo de vocalização aparece em Pistis Sophia, cap 136:


E Jesus fez uma invocação, voltando-se para os quatro cantos do mundo com seus discípulos, que estavam todos vestidos com roupas de linho, dizendo: IAO IAO IAO

Esta é sua interpretação: iota, porque o universo surgiu; alfa, porque ele vai retornar outra vez (ao princípio); omega, porque a conclusão de toda plenitude ocorrerá.

Uma maneira de se vocalizar IAO pode ser vista aqui:




A Prática da Vocalização


Realmente, essas vocalizações modificam alguma coisa não só em nossa mente mas em todo nosso ser. A prática prolongada, por vários minutos durante o dia, por vários dias com certeza promove coisas boas na vida de quem o faz. Por ser um tipo de meditação, por si só traz calma e quietude, abrandando os pensamentos. Mas essas vocalizações parecem despertar algo diferente do que o simples relaxamento. Ao longo da história, principalmente no meio esotérico, vemos muitos exemplos de como essa prática pode despertar a consciência, abrindo as portas para novas percepções da realidade e desenvolvendo habilidades até então desconhecidas. Como alguém que pratica, eu recomendo que se prepare, como já explicado em várias postagens sobre meditação, um lugar adequado, e que se faça a vocalização com energia e força, fazendo vibrar o peito e usando amplamente o diafragma e não apenas o pulmão durante a respiração. Também deve-se abrir bem o fundo da garganta para que o som saia mais potente, mesmo durante a vocalização do M. Enfim, as técnicas para se vocalizar o OM devem ser observadas para a vocalização gnóstica. Os resultados veem com o tempo e prática.

7 comentários:

  1. Muito importante saber mais, pois é ótimo obter conhecimentos.

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  2. Gratidão!Por favor fale mais sobre o assunto.Tem sido muito revelador para mim.

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    1. Obrigado pela visita! É muito bom obter esses conhecimentos dos antigos, eu fico encantado!

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  3. Obrigada por sua pesquisa. Me ajudou muito. Sinto muita afinidade com os cataros.

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  4. Se tem interesse em compreender os Cátaros, veja esse site: www.jessenios.net

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  5. Desculpem-me, faltou acrescentar: www.jessenios.net

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  6. Os Cátaros fazem parte da grande corrente de Escolas de Mistérios surgidas com a queda de Adão. Sua meta sempre foi a transfiguração da Alma Humana em Alma verdadeiramente Divina. Os Cátaros desagradavam as Religiões Naturais, exatamente por professarem a doutrina "dualista moderada", entendendo que esse mundo no qual vivemos, Deus só está presente em parte, e ainda assim, mediante esforços hercúleos por parte de seus Iniciados e suas Escolas de Mistérios. O único objetivo dessas Escolas é a de preparar por um curto período de tempo, cerca de 700 anos, a transfiguração daqueles seres humanos que buscam a Verdade e reconhecem a grande Ilusão deste mundo trevoso.

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